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DICA DE FILME


"Azul é a Cor Mais Quente" (2013)
Direção: Abdellatif Kechiche.


Definitivamente, ser adolescente não é fácil. Principalmente, no cinema. Geralmente, as produções mostram jovens com o mesmo esteriótipo: alienados, que só falam besteiras e pensam apenas em sexo. Essa limitação é muito recorrente no cinemão hollywoodiano. Não à toa, um filme francês vem nos mostrar adolescentes realmente inteligentes e interessantes, daqueles que você não se incomodaria em conversar horas a fio.

"Azul é a Cor Mais Quente" é uma produção que trata das relações humanas, mais especificamente, dos relacionamentos amorosos e da inadequação social de seu meio. Algo bem próximo de nós, por assim dizer. Adéle, a protagonista, vive por viver. O que motiva sua caminhada é o sonho de se tornar professora. Paralelo a isso, ama ler, o único refúgio onde ela pode encontrar ideias realmente interessantes.




Parafraseando uma música dos Titãs, ela sabe que não vai se adaptar a nada, nem a ninguém. Seus pais são omissos. Seus amigos (principalmente, "amigas") só falam sobre a primeira transa e coisas do tipo. É, inclusive, pela insistência de suas colegas que Adéle perde a virgindade com um dos garotos mais cobiçados da escola. Mas, não adianta. O ato, em si, não lhe deixa feliz. Digamos que ela apenas cumpriu seu "protocolo social".

Eis que Emma surge na vida dela. De início, relutante a respeito da relação com outra menina, o tempo de encarrega de aproximar cada vez mais as duas, onde Adéle, pelo menos por certo tempo, sente-se completa e plena. Só que um relacionamento a dois nunca foi fácil, seja entre dois homens, um homem e uma mulher ou duas mulheres. E, isso será um grande aprendizado para Adéle.



Algumas coisas a se considerar: "Azul é a Cor Mais Quente" foge dos clichês. Primeiro, lembrem-se: estamos falando aqui de uma relação homoafetiva. Já antevejo se fosse esse um filme norte-americano: preconceitos pipocariam na tela, violências forçadas contra as meninas, humilhações e, por que não?, até estupros. Aqui, no entanto, o enfoque é outro. Até aparecem algumas cenas de intolerâncias protagonizadas pelos amigos de Adéle, mas são muito poucas; o suficiente pra mostrar a estupidez do preconceito. Nada mais.

Além do mais, a relação das duas não se atém somente ao sexo em si, mas a um relacionamento com os seus eventuais altos e baixos. Numa hora, Adéle e Emma estão bem, para depois brigarem. Há inseguranças, planejamentos do futuro, a vida cotidiana, em suma. Tudo muito natural e espontâneo. Inclusive, essa espontaneidade se reflete no jogo de câmeras, com diversos closes aproximados das cenas, como se o diretor pedisse para que fôssemos íntimos e cúmplices dessa belíssima estória de amor. 



É preciso destacar a direção soberba de Abdellatif Kechiche, que conduz a estória com mão tão leve que as três horas do filmes passam despercebidas. Por sinal, queremos até que a estória continue, tenha mais desdobramentos, enfim. Isso porque há empatia pelas personagens (e, somente um preconceito muito estúpido para não torcer pela felicidade deles). As atuações das atrizes também são primorosas. Intimistas, mas sem fazerem pose. Ali são elas realmente, vivendo aquelas situações com intensidade.

E, as famosas e "polêmicas" cenas de sexo? Francamente, há filmes mais explícitos do que esse aqui. São sequências, sim, muito bonitas, verdadeiramente excitantes, e bastante espontâneas. Mas, estão longe de serem a tônica do filme. Apenas fazem parte de um conjunto bem maior. Se tais cenas causaram tanta celeuma a ponto da produção ter seu lançamento em BLU-RAY proibido só mostra o quanto estamos atrasados e caretas.




O resumo, enfim, de "Azul é a Cor Mais Quente" poderia ser colocado da seguinte maneira: é um dos filmes mais humanos de que se tem notícia nos últimos anos.
E, não é necessário mais.




NOTA: 10/10.

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