Pular para o conteúdo principal
Dica de Disco

"Origins - Vol. 01" (2016)
Artista: Ace Frehley.


A quem diga que o rock morreu. Sim, hoje em dia não parece haver alguma nova banda que daqui há alguns anos se transformará num gigante do gênero. Mas, a prova de que o estilo continua dando lampejos de vida é a insistência dos cânones em fazer boa música. Os velhos dinossauros, vez ou outra, ressurgem pra mostrar como se faz. E, eis que temos um dos discos mais bacanas de rock deste ano a cargo do senhor Ace Frehley, guitarrista de uma das melhores fases do Kiss.

O tempo de estrada fez bem a Ace, que aqui revisita temas de artistas que foram suas influências. Isso mesmo; estamos diante de um disco de covers (e, que covers!). O diferencial é que o guitarrista faz questão de executar versões que repeitam a estrutura original de cada canção, com as características de cada um dos artistas homenageados, mas, sem ser mera cópia. É Ace Frehley distorcendo sua guitarra, colocando muito veneno em cada acorde; coisa de quem tem a experiência necessária de saber o que está fazendo.



O interessante é que o álbum nem começa tão excelente assim, com a boa (mas, apenas correta) versão para "White Room", do Cream. Os slides de guitarra são estridentes, e podemos perceber toda a apurada técnica de Frehley, porém, o problema são os vocais, sem muita emoção. A coisa melhora (muito) com a visceral cover de "Street Fighting Man", dos Stones, que ficou bem idêntica à original, só que com toque mais moderno, e bem mais pesado. E, ela já abre caminho para outra versão arrasa-quarteirão, agora a cargo de "Spanish Castle Magic", do semi-deus Jimi Hendrix.

Não menos genial é o que Ace fez com "Fire and Water", do Free, que permaneceu com sua veia blues rock, mas, com a ajuda de Paul Stanley nos vocais, antigo parceiro de Frehley no Kiss, ela ficou mais encorpada (e, emocionante). "Emerald" é a homenagem do guitarrista ao seminal Thin Lizzy, que aqui teve a participação especial de Slash, que já é um espetáculo à parte. Isso tudo porque ainda está por vir a melhor versão do disco: "Bring it Home", do bom e velho Led, que, nas mãos de Frehley, não perdeu sua aura blues, ficando ainda mais empolgante.


"Wild Thing", assim como "White Room" é apenas uma música bem executada, mas, sem muito carisma, facilmente esquecível depois de ouvida. Voltando aos eixos, Frehley foca na própria casa, fazendo uma versão fantástica para "Parasite", de sua antiga banda, o Kiss. "Magic Carpet Ride", que vem a seguir, começa com uma pequena, mas potente, distorção, para depois mostrar uma música, cujos vocais, lembram um pouco algumas bandas alternativas da virada dos anos 80 para os 90. Ah, e essa canção é originária do Steppenwolf.

Retornando ao Kiss, com "Cold Gin", Frehley forja um clima que nos leva direto ao hard rock dos anos 80, quando sua banda mais famosa lançou clássicos absolutos, como "Creatures of the Night". Nostalgia pura. "Till the End of the Day" é rápida, como a própria versão original do Kinks, e, por fim, mais uma volta ao Kiss, com a soberba "Rock and Roll Hell", que fecha um trabalho despretensioso, mas, muito divertido, com chave de ouro.


Sim, o rock não morreu. Não, este disco não vai "salvar" o estilo. Sim, Ace Frehley mostra que experiência conta muito. E, não, talvez, não tenhamos, esse ano, outro álbum de rock com tanto frescor quanto "Origins". Como é apenas o volume 1, isso dá margem para que venham outras edições. Serão muito bem-vidas. É aumentar o volume, e reviver um tempo em que titãs andavam sobre a Terra.




Nota: 8,5/10


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…