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Dica de Filme

"Café Society" (2016)
Direção: Woody Allen


Para os autênticos cinéfilos, esperar, todo ano, um filme de Woody Allen é certeza de um cinema com qualidade, mesmo quando o baixinho novaiorquino não está, necessariamente, inspirado. Na verdade, o último grande filme dele já tem uns bons 5 anos ("Meia-Noite em Paris"), e, de lá pra cá, mesmo com trabalhos interessantes e acima da média,o diretor parece estar no piloto-automático. Continua inspirado, é verdade, mas, falta ir além, com aquele mesmo pingo de ousadia que o fez realizar a incrível releitura de Dostoiévski em "Match Point", por exemplo. Seu mais recente trabalho, "Café Society", sofre da síndrome "é bom, mas, poderia ter sido melhor".

A trama é puro Woody Allen, cheia de personagens neuróticos, traições amorosas, acontecimentos absurdos do cotidiano e piadas inteligentes. No meio disso tudo, conhecemos Bobby, que, aspirante a escritor, muda-se para Los Angeles a fim de ingressar na carreira cinematográfica com a ajuda do seu tio Phil, produtor de cinema. As coisas saem de rumo quando se envolve com Vonnie, secretária particular de seu tio. Paralelo a isso, vai se envolvendo cada vez mais com a chamada elite do cinema em Hollywood. Logo que chega, Bobby não se enquadra naquele estilo de vida, mas, aos poucos vai sendo cooptado por esse meio.




Só esse enredo já é suficiente para o bom e velho Woody mostrar suas características mais marcantes. O personagem neurótico da vez é Bobby, alter-ego do cineasta, que, mesmo ficando mais sisudo e introspectivo a medida que o tempo passa, mantém um ar meio ingênuo em relação à vida e às pessoas. Mas, o filme também revela outros personagens interessantes, como um dos irmãos de Bobby, que, metido no mundo dos gângsters, sempre resolve suas desavença de maneira um tanto "radical". Já, Phil e Vonnie, mesmo sendo parte imprescindível na trama, não são devidamente explorados, com exceção de alguns diálogos que mostram um pouco da personalidade deles, mas, não mais do que isso.

As piadas aqui estão contidas, porém, quando aparecem, funcionam. As melhores envolvem os pais de Bobby às voltas com as tradições judias, em impagáveis e divertidas conversas. Há também os habitais encontros e desencontros nos enredos de Allen, que proporcionam alguma graça, e dão algum interesse para a história, esta, um tanto fraca. E, talvez esse seja o grande defeito deste filme: sua trama excessivamente simplória, em que os sub-textos não são explorados em sua capacidade devida. Só pra se ter uma ideia: mesmo com um enredo igualmente simples, "Para Roma com Amor" soube expressar muito bem a banalidade e efemeridade das celebridades instantâneas, gerando, com isso, um debate bacana. Em "Café Society", algumas questão nem chegam a arranhar a superfície.




Com a possibilidade desperdiçada de abordar melhor certos temas, o que sobra, ainda assim, acaba sendo bom. Referências ao cinema clássico de Hollywood aparecem aqui e acolá, com Phil, integrado à elite de Los Angeles, usando e abusando de seus contatos com estrelas da sétima arte. O ar cool do local e do período histórico também proporcionam bons momentos no sentido musical, principalmente, quando Bobby passa a gerir o Café Society, um dos lugares mais badalados de Nova Iorque. O jazz, óbvio, impera nessa parte, e é de muito bom gosto, como era de se esperar. 

O que não era de se esperar, e realmente não surpreendeu, foram as atuações. O trio principal de protagonistas (Jesse Eisenberg, Kristen Stewart e Steve Carell) estão apenas "ok" em seus respectivos papeis. Nada de extraordinário, mas, funcionam bem, sendo que, muitas vezes, os coadjuvantes acabam se saindo bem melhor. Já, a direção de Woody está boa e razoavelmente segura, pecando pelo fato da narrativa, muitas vezes, ser acelerada demais. Um pouco mais de desenvolvimento da história cairia bem. Com isso, o filme ficaria mais longo, mas, pelo menos, a trama estaria mais bem resolvida, sem tanta correria nos acontecimentos.




"Café Society" é um filme recomendável? Sim. Afinal, um Woody Allen mediano ainda se destaca em meio ao que está sendo feito hoje em dia. Mesmo assim, falta algo. Não importa se é a ousadia de um "Match Point" ou a leveza desconcertante de "Meia-Noite em Paris", o certo é que Woody já está nos devendo um trabalho verdadeiramente marcante há um bom tempo. Mas, como o baixinho já nos presenteou com verdadeiras pérolas do cinema em outras ocasiões, daremos um merecido desconto a ele. Enquanto isso, estaremos lá, todo ano, assistindo a seus filmes, que, mesmo quando não são uma maravilha, valem o ingresso.


Nota: 7/10


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