Dica de filme (O Conto da Princesa Kaguya)
Dica de Filme
Título: O Conto da Princesa Kaguya
Ano de lançamento: 2013
Direção: Isao Takahata
A noção irreal de nobreza que destrói o ser humano
Um padrão que as animações dos Studios Ghibli traz muito é o do amadurecimento em face das complexidades da vida, especialmente para meninas. Ao mesmo tempo, muitas das personagens femininas desses desenhos são fortes, decididas e impetuosas. Por isso, de uma certa maneira, é interessante notar como O Conto da Princesa Kaguya meio que subverte esses princípios.
Não que a personagem principal, Kaguya, não seja forte, decidida e impetuosa. Ela é. Porém, sua história segue o oposto do que poderíamos chamar de responsabilidades diante da vida adulta. Isso porque Kaguya é uma menina de espírito livre, que adora brincar, correr, subir em árvores... Tudo o que uma potência infantil permite. Só que isso cria contraste com o que é apresentado na história como amadurecimento (uma vida triste, tolhida por regras absurdas, com imposição de casamento onde Kaguya não tem nenhuma autonomia - não pode nem mesmo sorrir).
Não é à toa que um dos elementos mais importantes da história de O Conto da Princesa Kaguya é o fato da protagonista crescer muito rapidamente (de uma maneira humanamente impossível) logo após o seu nascimento em um caule de bambu (!). É como se em certos tipos de sociedade as crianças (principalmente as meninas) tivessem que crescer mais cedo, amadurecer mais cedo, tornassem adultas mais cedo para cumprir seus objetivos, seja se tornar uma "princesa", seja se casar com quem nem mesmo elas conhecem.
E essa imposição de regras e normas dentro na nobreza (da elite) cria um conflito muito triste com a personalidade de Kaguya, que quer continuar sendo um pouco mais criança, correr, brincar, sorrir. Em uma cena, por exemplo, na festa do que provavelmente foi a sua primeira menstruação, ela foge desesperada, arrancando as vestes reais, e deixando-as para trás como um peso de uma vida que ela não desejou.
Por sinal, essa questão de destino escrito pelos deuses que precisa ser seguido custe o que custar é bem literal aqui já que o pai adotivo de Kaguya, ao encontrar ouro e roupas da realeza dentro de caules de bambu, supõe que o que os deuses querem é que a menina seja uma princesa, que faça parte da nobreza. Ou seja, é a interpretação de um camponês humilde sobre a um possível sinal divino e que impacta na vida de uma menina que, independente de ser ou não um ser divino, aqui na Terra ainda é uma criança.
A felicidade que Kaguya busca não é a de um bom casamento ou mesmo de riquezas imensuráveis. A alegria dela está no mundano, no cotidiano simples daqueles que estão à margem, invisíveis justamente aos olhos da nobreza. Na realeza, ela só encontra falsidade, mentira e até mesmo uma violência que parece simbolizar um abuso sexual. Ao passo que fora dos portões e dos olhos dessa elite decadente e patética, ela encontra alegria, potência de vida.
Nesse aspecto, uma das cenas mais bonitas é quando ela encontra seu amor de infância e diz: "eu teria sido feliz o seu lado". E começa a voar junto com ele. Querem imagem mais sublime do que significa realmente liberdade? Só que entre um mundo real de alegrias (apesar das privações materiais) e outro mundo real repleto de ouro, mas também de sujeira e afetos baixos, seu único refúgio acabará sendo o divino, o que ainda é imensamente triste, já que ela queria ficar na Terra e sentir um pouco mais das alegrias daqui.
Detalhe: tudo isso conduzido por um estilo de animação aquarelada que deixa a história ainda mais onírica.
O Conto da Princesa Kaguya é uma das mais interessantes animações dos Studios Ghibli. Mesmo partindo de um conto popular japonês, e situando a história séculos atrás, o desenho consegue falar do presente, de como meninas (ainda) são submetidas a um regime de opressão, precisando "crescer" mais rápido para cumprir seus papéis sociais, esvaziando mentes cheias de vida e deixando no lugar princesas não-humanas, apáticas e obedientes.
Nota:⭐⭐⭐⭐⭐️








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