DICA DE FILME (PAI MÃE IRMÃ IRMÃO)
Dica de Filme
Título: Pai Mãe Irmã Irmão
Ano de lançamento: 2025
Direção: Jim Jarmusch
As relações familiares são complicadas (e também podem ser bonitas, tristes, melancólicas, desconfortáveis...)
Jim Jarmusch é um diretor minimalista. No melhor sentido. Seus trabalhos mais interessantes são aqueles que trazem pequenos detalhes das relações humanas e, a partir disso, traçam um panorama maior. Cada atitude do dia a dia, cada gesto, cada olhar, cada palavra dita e não dita dos personagens de Jarmusch podem nos fazer refletir como a um espelho (será que também sou assim com aqueles ao meu redor, parentes, amigos ou com um mero desconhecido na rua?).
Seu mais recente trabalho, Pai Mãe Irmã Irmão, opera muito nesse sentido. São três histórias, uma focada em um pai, outra em uma mãe e a última em um casal de irmãos. Bem, não diria necessariamente "focadas" em apenas um ou outro personagem porque essas histórias, de uma certa forma, falam de todos ali envolvidos. Da maneira como se comunicam, como dizem uma coisa querendo dizer outra, as cobranças, o oportunismo para se aproveitar de uma ou outra situação... Mesmo sendo familiares, parecem nunca ser sinceros o suficiente uns com os outros (com exceção da última parte, onde os irmãos ali têm uma relação mais próxima, amorosa e honesta).
Jarmusch, justamente por ser minimalista, trabalha com pequenos detalhes que, à primeira vista, parecem coisas soltas, mas, que se conectam com o tema principal. Por exemplo: há uma constante presença da água nos diálogos, seja como remédio, seja como purificação, seja como doença em caso se estar contaminada. É como se isso simbolizasse as diferentes relações familiares, que, saudáveis ou não, são elementos que carregamos pra sempre (como a água no corpo). Ou mesmo cenas de skatistas, também presentes nas três histórias, como se aqueles jovens ali representassem a liberdade de um passado que não volta mais.
Como dá pra notar, Pai Mãe Irmã Irmão é um filme de diálogos. Mas, por causa do tema, o que não é dito pelos personagens é mais importante ainda, especialmente nas duas primeiras histórias. Há um constante desconforto no ar, conversas triviais e clichês que exigem respostas curtas e secas (e que não dizem praticamente nada), a intenção de revelar algo, de expor uma opinião mais profunda, uma mágoa ou talvez um ressentimento. Nada disso é explicitado. Mas, sentido em cada gesto milimetricamente calculado, da posição em que se senta no sofá à forma como se pega uma xícara de chá. Dá uma sensação de oportunidades perdidas, onde nunca alguém diz o que quer de verdade (salvo em raríssimas exceções).
Interessante ainda perceber como o filme mostra que acaba sendo mais difícil a convivência entre pais e filhos do que entre irmãos. Nesse último caso, ainda há conversas mais espontâneas e algumas verdades ditas mais na cara (mesmo que maldosas). Mas, no caso de pais e filhos, entra constantemente a questão da cobrança, da expectativa, da frustração. Não é à toa que outro elemento que aparece muito nas três histórias de Pai Mãe Irmã Irmão são as fotografias antigas. Elas acabam servindo como lembretes de um possível passado feliz em contraposição ao presente seco, frio e calculista das relações entre aquelas mesmas pessoas. O que mudou? As pessoas mudaram? Ou sempre foram daquele jeito e não percebíamos?
E também não é por acaso que o segmento mais, digamos, feliz ou mesmo esperançoso seja o último, só dos irmãos. Mesmo lidando com a morte dos pais devido a um acidente aéreo, os irmãos dessa terceira história estão, sim, tristes, um pouco perdidos e vivendo o seu luto. Mas, das recordações do passado, lembram que existe um presente e um futuro. E que podem contar um com o outro. Em um filme com histórias cheias de falta de conexão afetiva real e com atitudes protocolares, encerrar tudo assim, com dois irmãos que genuinamente se gostam e andando para o futuro, faz sentido para um diretor como Jarmusch, que, dentro do seu minimalismo, sempre gostou de falar de pessoas, filmar pessoas, dar a essas pessoas um certo alento.
Pai Mãe Irmã Irmão, portanto, é mais um belo trabalho do Jarmusch. Simples, mas, não simplório, mostra como as relações familiares são delicadas, perpassadas por inúmeros afetos contraditórios, mas, que poderiam ser um pouco melhores com diálogos mais honestos (ou até silêncios mais sinceros). Um dos filmes mais sensíveis do ano.
Nota:⭐⭐⭐⭐









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