Pular para o conteúdo principal
DICA DE LIVRO

"O VERMELHO E O NEGRO" (1830)




Certos livros passam por nossas mãos, e, sem que imaginemos, tornam-se, pra nós, clássicos absolutos. "O Vermelho e o Negro", romance escrito pelo francês Stendhal, foi adquirido sem grandes pretensões. Apenas com a possibilidade de ser uma boa leitura, já que ele foi bem indicado a pessoas próximas. O que não imaginava é quão ele seria envolvente do começo ao fim, tornando-se uma leitura bastante essencial.

Em linhas gerias, sua estória dá conta das desventuras de um camponês (um herói humano, com suas eventuais falhas): Julien Sorel. Maltratado desde cedo por pai e irmãos, Julien cria dentro de si uma enorme ambição, com a qual almeja galgar degraus numa sociedade cheia de hipocrisia e mesquinharia. Vale-se para isso de uma singular inteligência, aliada a extensos estudos, como o de latim, que o levam a diversos lugares, como em convento de seminaristas ou na administração de famílias da nobreza. Cada passo para ele é uma descoberta. E, isso coloca em sua pobre alma tanto uma felicidade passageira quanto um tédio e uma melancolia eternas. Trata-se da tristeza por saber que é preciso ser falso quase o tempo todo, desempenhar um papel social, muitas vezes servindo como mera diversão para os ricos, que nunca o deixam esquecer de que se trata, no fim das contas, de um reles camponês.




Muitas passagens são memoráveis. Uma delas dá vazão aos pensamentos de Julien a respeito de um de seus patrões:

"Sobretudo, ele devem ter medo dessa classe de homens de valor que, depois de uma boa educação, não têm dinheiro suficiente para fazer carreira. Que seria desses nobres de pudéssemos combatê-los com armas iguais!"

Em outro momento, Stendhal "caracteriza" o tempo histórico da narrativa com sarcasmo:

"A marcha normal do século XIX é que, quando um ser poderoso e nobre encontra um homem de coração, mata-o, exila-o, encarcera-o ou humilha-o de tal forma que o outro comete a tolice de morrer de pesar!"

O autor ainda cita aqui como Julien vê a ambição dos que conviveram com ele no convento:

"A felicidade, para esses seminaristas, como para os heróis dos romances de Voltarie, consiste sobretudo em comer bem. Julien descobria em quase todos eles um respeito inato pelo homem que veste 'pano fino'."

Inclusive, é bom ressaltar o quanto o escritor tem domínio total de seu texto. As quase 500 páginas do romance podem afugentar algum leitor desavisado, a princípio, mas a insistência é imensamente válida. Stendhal impõe um rigor narrativo ótimo, ao mesmo tempo que mescla "diálogos diretos" com quem lê, tornado o conjunto mais interessante. E, ainda assim, ele consegue sora bastante crítico e ácido. Exemplo:

"'É preciso', pensava Julien, 'que eu me adapte a essas conversas". Quando não falavam de salsichas e bons curatos, entretiam-se com a parte mundana das doutrinas eclesiásticas (...) Foi por esse tempo que Julien entendeu tirar partido do seu conhecimento do livro Do Papa, do Sr. de Maistre. A falar a verdade, ele espantou os companheiros; mas isso foi pior. Expondo a opinião deles melhor do que eles próprios, desagradou-lhes. O sr. Chélan fora imprudente para Julien como era para si mesmo. Depois de lhe haver dado o hábito de de raciocinar com justeza e de não se deixar levar por palavras vãs, esquecera-se de dizer-lhe que para o indivíduo menos considerável semelhante hábito é um crime: todo bom raciocínio ofende."




Julien, percebe-se, é um personagem fascinante. Mesmo se vendo obrigado a vestir inúmeras máscaras da alta sociedade para ser aceito, nunca dobrou seu espírito. De uma certa forma, tinha firmeza de caráter sempre enfadonho com as coisas ridículas feitas pela nobreza, sendo bastante crítico para com os outros, e, principalmente, para consigo. Na realidade, seu martírio interior o faz se humilhar constantemente, nunca sob o viés do falso moralismo ou da vitimização tão comum aos hipócritas que ele próprio odeia. Nu trecho crucial, el diz:

"Mas, mesmo que eu fosse menos culpado, vejo homens que sem contemplação para o que minha juventude possa merecer de piedade, hão de querer punir em mim e desencorajar para sempre os jovens que, oriundos de uma classe inferior e de qualquer forma oprimidos pela pobreza, tem a felicidade de conseguir uma boa educação e a audácia de imiscuir-se naquilo que o orgulho da gente rica chama 'a sociedade'."

Por fim, Julien se resume:

"E, que me restará se me desprezar a mim mesmo? Fui ambiciosos e não quero absolutamente censurar-me por isso; agi, então, segundo as conveniências da época, Agora vivo o dia a dia. Mas, à vista do mundo, eu me sentiria muito infeliz, se caísse em alguma covardia."





Após mais algumas poucas páginas, termino de ler "O Vermelho e o Negro". Sentimentos, pensamentos e reflexões múltiplas; um turbilhão de ideias. Uma excelente, mas triste, viagem a muitos meandros das virtudes e dos defeitos humanos. Uma obra que, como tantas outras que se tornariam atemporais, nos dá dicas do que somos de fato. O espanto é o mínimo.


NOTA: 10/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista

10 Melhores Discos Nacionais de 2017 (Até Agora)


Sim, meus caros, não está nada fácil. Achar os "10 melhores discos nacionais lançados em 2017 (ate agora)" demandou bastante tempo, mesmo porque, até no meio do cenário indie, anda rolando uma certa mesmice em termos de sons e atitudes, com bandas soando rigorosamente iguais umas as outras. Está faltando identidade e carisma até na nossa música alternativa, infelizmente. Mas, lamentações à parte, esta é uma pequena lista que se propõe a ser um guia atual para quem deseja saber o que anda acontecendo de bom por aí. 
Torcer, agora, para que os próximos meses sejam mais produtivos no sentido de termos mais lançamentos bons como estes.
🎵


10°
"Feeexta"
Camarones Orquestra Guitarrística


"Canções Para Depois do Ódio"
Marcelo Yuka


"Triinca" Triinca

"Galanga Livre" Rincon Sapiência

"Vênus" Tupimasala
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…