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DICA DE FILME

"Tangerinas" (2013)
Direção: Zaza Urushadze


"Haveria algum sentido na guerra?"

Uma indagação não tão fácil de responder, mas que o excelente filme "Tangerinas" consegue dar eficazes argumentos para podermos, quem sabe, acharmos alguma resposta a isso.

Ivo, por exemplo, um velho carpinteiro que mora numa aldeia abandonada na Estônia, aparenta saber muito bem as consequências da guerra. Devido uma (mais especificamente, a Guerra na Abcásia, ocorrida em 1992), seu filho morreu e todos no vilarejo onde ele reside se foram, menos um de seus amigos: Margus.

Este se recusa a sair para poder colher as tangerinas do local. Ivo o ajuda, meio a contragosto, pois não queria tanto estar aí, mas, em consideração ao amigo, que vê na colheita dessas tangerinas uma forma de preservar alguma tradição em meio o horror de um conflito, ele fica.



Surge, então, na vida deles, mais dois personagens: Ahmed e Niko. Ambos são mercenários e lutam de lados opostos nessa guerra (Ahmed é muçulmano e caucasiano, enquanto Niko é cristão e georgiano). Os dois são feridos em confronto próximo à casa de Ivo, e este resolve cuidar dos dois.

A partir desse acontecimento, a casa do velho carpinteiro se torna um microcosmo de conflitos, uma vez que Ahmed  e Niko se odeiam e querem matar um ao outro; só que nem eles mesmos sabem exatamente porque. Os argumentos que cada um usa são claramente falhos, mas ainda assim eficientes para cegar os dois do óbvio: eles estão no mesmo barco, feridos, quase foram mortos, e ainda têm um salvador em comum: Ivo, que não apenas ajuda os dois em sua recuperação física, mas serve também como uma espécie de mediador. Força ambos a pensarem qual o valor da vida humana e o porquê de uma guerra sem sentido.


"Por que vocês, jovens, vão pra guerra pra se matarem? Isso é honra pra vocês? Não, é estupidez. Ahmed está furioso porque Niko matou um amigo seu, mas Niko também perdeu dois amigos nas mãos de Ahmed. São todos iguais, no final das contas!"

"Tangerinas" tem situações tensas, mas propositalmente "secas". As mortes são mostradas de maneira rápida, sem lágrimas, nem lamentações. O recado fica evidente: todos saem perdendo, e ninguém pode se dar ao luxo de se compadecer mais do que o outro. Todos estão alienados pela guerra, tentando justificá-la através de ideias distorcidas, e podem morrer a qualquer momento.


Interessante notar que Ahmed e Niko poderiam se matar quando quisessem, mas em respeito a Ivo não o fazem. Mostram, pois, que até mesmo na sua estupidez, eles entendem muito bem o que Ivo representa e que ele é a pessoa mais correta, íntegra e reta que eles poderiam ter encontrado.

Não há defeitos neste filme. Não esperem catarses desnecessárias. Seus realizadores entendem o respeito e o pesar pelas vítimas desse tipo de insanidade precisam ter, e constroem uma fascinante estória, com um ritmo adequado e um roteiro enxuto, onde a convivência entre os diferentes é plenamente possível; basta enxergar as coisas com clareza.

Nesse sentido, muito ajuda a atuação de cada um dos atores (estupendos, mas, devidamente contidos), passando com sutilezas um processo lento, mas necessário, de humanismo. E, a produção ainda possui uma trilha sonora que, mesmo minimalista, é condizente com um ambiente ora desolador, ora esperançoso.


O que define bem "Tangerinas" é isto: trata-se de um filme bastante humano. Um precioso recorte de dignidade e altruísmo em meio à brutalidade. E, ainda mais, deixando uma sensação triste no ar. Afinal, ainda temos muito caminho até chegarmos a um nível de consciência como Ivo. Mas, nunca é tarde para começarmos a refletir, mesmo que o mundo não esteja tão favorável assim.


NOTA: 9,5/10.

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