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Debate Sócio-Político

ESTUPRO: A LINHA (NADA) TÊNUE ENTRE A DENÚNCIA E O ESPETÁCULO

Por Erick Silva.




     "Game of Thrones": cenas apelativas em nome de audiência.


Antes de mais nada, vou confessar que não assisto a série "Game of Thrones", e, muito menos, vi a tal polêmica cena de estupro em seu mais recente episódio. Isso me desqualifica pra falar do assunto? Creio que não, pois algumas coisas são muito óbvias. Tipo: até mesmo os fãs mais ardorosos de "Game of Thrones" admitem que ela exagera na violência explícita. Ora, se há um consenso que existe uma apelação desnecessária em certas cenas dela, é claro que uma sequência de estupro na série não vai ter outra função senão chocar; apenas isso. Portanto, não preciso ter assistido a famigerada cena para entender a intenção por trás disso.

Mas, vamos por partes.

Quando se critica algo assim, rapidamente correm para dizer que se trata de censura. Nesse caso específico, muitos chegaram até a falar que se queira abolir cenas de estupro em séries e filmes. Exageros à parte, é bom que se diga que bom senso não é censura. A arte pode, sim, expor todas as formas de violência (inclusive, o estupro), porém, é realmente necessário "mostrar por mostrar", apenas com o intuito de causar polêmica e, consequentemente, conseguir um pouco mais de audiência?


                                                                               "Irreversível": outro caso de violência como mero espetáculo.


Vejam: o estupro ainda é um problema grave em qualquer parte do mundo. Em certos países, por sinal, ele chega a ser publicamente tolerado, dependendo da cultura da região, onde a mulher é sempre um ser submisso. Mesmo com os recentes avanços, o machismo ainda está impregnado em diversas cabeças por aí, que acham que a mulher é um mero objeto sexual. Portanto, não se trata de proibir cenas de estupro, mas ter a consciência de como mostrá-lo, sem que se torne um espetáculo grotesco.

Para reforçar isso, temos bons exemplos que citarei aqui.


                                                        "Dogville": estupro como parte integrante da trama.


Em "Dogville", o enredo fala de uma mulher misteriosa que chega a um pequeno vilarejo e é acolhida pela população do local. Mas, quando descobrem que ela é procurada até pela polícia, passam a humilhá-la, e um dos moradores chega ao ponto de estuprá-la. Detalhe: como o filme se passa num único cenário, como num teatro, as casas possuem parades "imaginárias". Várias pessoas passam tranquilamente ao lado dessa cena, e só depois nos damos conta da mensagem passada: muitas vezes coisas horríveis se passam bem próximas a nós, e não percebemos.


     "Meninos não Choram": violência de gênero misturada com homofobia.


Outro bom exemplo em que uma cena de estupro é bem utilizada é em "Meninos não Choram". Nele, não é somente esse tipo de violência que é retratada, mas também a homofobia, pois os rapazes que cometem esse ato ficam com ódio por terem sido "enganados" pela menina que se fingiu de menino. Portanto, acaba sendo justificável expor o estupro, pois evidencia o preconceito (ainda latente) da questão da orientação sexual também.


                                                                                                      "Para Sempre Lilya": desconfortro necessário.


Por fim, temos um filme sueco chamado "Para Sempre Lilya", onde tem uma sequência de, pelo menos, uns 10 abusos sexuais contra a personagem principal. Detalhe: a câmera só mostra os homens de frente, no movimento do sexo. É como se o espectador estivesse sendo violentado também. Essa imersão é desconfortável, e mostra a boa intenção do diretor do filme em não fazer do estupro uma cena plástica, e mostrar que se trata de pura violência.

Agora, voltemos a "Game of Thrones".

Pois, bem. Como já é notório que a série exegera no quesito violência, seria até evidente que, uma hora, ela iria passar dos limites em algum ponto. Só que esses limites foram ultrapassados justamente em relação ao estupro, que, como bem demostrado nos filmes que citei (e ainda existem muitos outros), pode ser conduzido sem apelação, sem espetacularização. Talvez o erro de quem assiste a série e se indignou tenha sido não ter reclamado antes das inúmeras outras cenas gratuitas de violência, mas isso também não invalida a crítica que a série, de fato, merece.


                                                             Se é pra mostrar, que seja pertinente.


Alguns argumentam que se trata da violência contra um personagem fictício, enquanto a violência real ocorre todos os dias por aí. No entanto, um personagem, mesmo fictício, é a representação de uma realidade, e, por isso, um retrato do nosso cotidiano. Se expomos um estupro de maneira vazia e apelativa, estamos dando aval para que, na realidade, tratemos esse tipo de violência com desdém, e até com naturalização. Afinal, é notório que, quanto mais crueldade vemos, menos sensíveis podemos ficar em relação à dor alheia.

Não se trata de censura, portanto. Já está provado que cenas de estupro são bem-vindas, mas, contanto que tenham um propósito, e não o mero "choque pelo choque". Com um pouco de inteligência e sensibilidade, dá para mostrar que o estupro é uma das mais bárbaras formas de subjulgar o outro, principalmente quando esse outro é uma mulher. Claro, isso se você não quiser apenas mais alguns números na audiência.

Vai da intenção de cada um.

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