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DICA DE FILME

"Tideland" (2005)
Direção: Terry Gillian.


(AVISO: CRÍTICA COM SPOILERS)

Gillian, eternamente lembrado por ter participado do grupo de comédia britânico Monty Phyton, é um exímio arquiteto de imagens. Seus filmes, geralmente, são muito bonitos de se ver, possuindo cenas bastante simbólicas e oníricas. É só recordar, por exemplo, que "O Fantástico Mundo do Dr. Parnassus" e "Os Doze Macacos" são dele. No entanto, são filmes visualmente muito interessantes, mas que pecaram, de alguma maneira, no conteúdo. Por algum motivo, as histórias meio que se perdiam em cenas muito gráficas.

"Tideland", ao contrário, consegue quebrar esse estigma. Sim, as belíssimas imagens e as cenas ultra viajadas continuam aqui, mas convivendo em harmonia com um lado mais humano. Precisou, pra isso, Gillian adapatar o livro de Mitch Cullin, este fazendo refência clara a "Alice no País das Maravilhas" (o livro). Pra quem teve a oportunidade de ler a obra máxima de Lewis Carrol, sabe que, ao contrário do famoso desenho, o livro é sombrio e até triste, mostrando a fuga da realidade de uma menina, que usa sua imaginação para construir um mundo mais adequado para ela.



Com essa premissa, o que Gillian fez? Pegou uma menina (Jeliza-Rose) completamente deslocada no mundo, "cuidando" de pais que se drogam o tempo todo. Após a morte deles, precisa sobreviver de alguma maneira. O jeito encontrado foi através de sua (fértil) mente. Ela "conversa" com cabeças de bonecas como se fossem suas melhores amigas, e por aí vai. Quando ela encontra uma estranha senhora (Dell) e seu irmão com necessidades especiais (Dickens), sua visão ilusória e inocente do mundo não muda; ao contrário, fica mais intensa.

A alegria que pontua o enredo do filme é uma alegria melancólica. O espectador sabe que a vida de Jeliza é horrível, cheia de traumas, mas se conforta com o fato dela fugir disso usando apenas a sua visão de criança. Ela não vê maldade em nada, nem o fato de dizer que está apaixonada por Dickens, e que está "grávida" dele. Também não vê muitos problemas em preparar as seringas cheias de heroína que o seu pai, o que faz com a maior naturalidade. É uma visão de mundo realmente peculiar, e que faz pensar até que ponto enxergamos as coisas; sob uma ótica boa ou ruim.


O filme tem a aura do livro "Alice no País das Maravilhas", mas, podemos encontrar ecos no cinema recente, como "O Labirinto de Fauno" e "Indomável Sonhadora", estes, posteriores a "Tideland". Em todos eles, acompanhamos a luta, por vezes inglória, de crianças usando a imaginação para amenizarem seu sofrimento na vida real. Um tema, portanto, tocante, e é este o elemento humano que talvez tenha feito tanta falta à maioria dos filmes de Terry Gillian. Tanto é que seus arroubos visuais aparecem aqui, mas de forma comedida, porém, fascinantes.

Na narrativa, em si, quase nada acontece. Mesmo assim, ficamos ansiosos com o que vai acontecer a Jeliza-Rose. Como espectadores desesperados, não podemos fazer nada, a não ser torcer por ela, e esperar que a loucura da realidade não destrua sua mente de criança. Pode parecer fácil ter empatia pela protagonista, mas o diretor faz questão de que não tenhamos apenas piedade dela, mas também que mergulhemos junto com ela na sua imaginação. Nesse ponto, Gillian consegue uma imersão fantástica de nós numa história tão surreal.


E, todos os atores estão perfeitos em seus papéis. Uma pena que Jeff Bridges e Jennifer Tilly apareçam tão pouco em cena, pois seus personagens mereciam um tratamenteo maior. Mesmo assim, é compreensível dentro da proposta do enredo. Mas é a Jodelle Ferland (de "O Segredo da Cabana") quem segura o filme nas costas. Sua personagem precisa transitar entre o amadurecimento diante de uma realidade hostil e o escape mental de uma vida mais amena, divertida, e ela consegue passar isso com expressões, tons de fala, e tudo mais.


"Tideland" significa contraponto. E, isto já mostra bem o que vamos encontrar neste trabalho fascinante de Terry Gillian: uma contraponto, uma negação da visão da realidade. Uma realidade que não buscamos mudar, nem nos esforçamos para torná-la mais agradável em nossa imaginação. A personagem Jeliza-Rose, porém, lutou contra isso da melhor forma, e podemos dizer que se trata de uma vitoriosa, independente do que o destino irá lhe reservar. Deu um sorriso para a vida, e achou um sentido para sua existência.


NOTA: 9,5/10.

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