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DICA DE FILME

"Violeta Foi Para o Céu" (2011)
Direção: Andrés Wood.


Violeta Parra foi uma artista singular. Considerada a mais importante folclorista do Chile e fundadora da música popular chilena, Parra viveu, desde cedo, as agruras e dificuldades da vida. Não se distanciou de suas raízes, mesmo depois do sucesso. E, principalmente, sua arte era reflexo daquilo que sentia, tanto em relação a si, quanto em relação aos que a cercava.

A cinebiografia "Violeta Foi Para o Céu" acompanha sua trajetória, mas não de maneira linear. Não há uma cronologia definida. Apenas, a exposição de fatos que foram marcantes em sua vida, desde o relacionamento conturbado com o pai, até o romance com o suíço Gilbert Favre, o grande amor dela.



Paralelo a esses acontecimentos, acompanhamos trechos interessantes de uma entrevista que ela deu à televisão em 1962. É dessa entrevista passagens reveladoras, como, por exemplo, quando é indagada sobre ela ser ou não comunista. "Mas, o que é ser comunista? Preocupa-se com os problemas de seu povo?"

Interessante notar que a música que Violeta Parra fazia era totalmente inspirada pelo o que ela passava em cada momento de sua vida, e isso é bem mostrado aqui. Quando seu filho recém-nascido morre, ela compõe uma tristíssima canção. Já, quando ela está ameaçada de ser despejada de um terreno onde montou um ateliê cultural, ela faz uma música com uma carga de revolta muito forte.


Para o público, Parra, no entanto, era mais conhecida como a mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos, mesmo que ela tenha manifestado essa preocupação também em outras formas de arte, como na pintura, por exemplo. Dessas composições engajadas, merece destaque "Volver a Los 17", que foi regravada por Miltom Nascimento e Mercedes Sosa.

Mas, a vida pessoal dela era tão tensa quanto a situação política e social de seu país. Sempre lutou contra a transformar sua arte em algo "exótico" para apreciação das classes mais ricas. Uma passagem aqui retratada é emblemática, que é quando ela toca para uma plateia nos corredores de um famoso museu, e depois se revolta com a indiferença das pessoas diante de sua música.


Em 1965, de volta ao Chile, viajou para a Bolívia. Ao regressar a seu país, instalou uma grande tenda na comuna de La Reina, com o plano de convertê-la em um centro de referência para a cultura folclórica do Chile, juntamente com os filhos, Ángel e Isabel, e os folcloristas Patrício Manns, Rolando Alarcón e Víctor Jara, entre outros. No entanto, a iniciativa não obteve sucesso, e esse foi o canto do cisne para Parra, que cometeu suicídio em 5 de fevereiro de 1967.

Nessa cinebiografia, felizemente, não temos nenhum endeusamento da figura central. Violeta Parra é tratada como uma pessoa comum, com seus eventuais defeitos, mas também, por vezes, com uma grandeza na alma impressionante. Há bastante destaque, igualmente, para sua consciência política e social, que, na sua simplicidade, entendia como funcionava uma sociedade cheia de desigualdades.


Evitando essas armadilhas, "Violeta Foi Para o Céu" também nos mostra uma excelente estória de uma mulher aguerrida, que não se dobrava a nada, nem a ninguém. E, que pagou um preço alto por isso. Porém, a própria estrutura narrativa do filme não nos permite termos pena de Parra, e sim, revolta junto com ela. Pegamos a luta dela para nós. Isso porque há paixão e fogo pela vida, uma inquietação genuína de uma verdadeira artista.

Uma cinebiografia, acima de tudo honesta, muito bem realizada, com uma tremenda carga emocional. Violeta Parra realmente precisava de uma homenagem assim. Se ela foi para o Céu, ainda não sabemos; mas, com certeza, merecia alguma paz.



NOTA: 9/10.

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