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DICA DE FILME

"Praia do Futuro" (2014)
Direção: Karim Aïnouz.


Às vezes, sentimos que estamos "deslocados" do ambiente em que vivemos. Essa inadequação, na maior parte dos casos, pode causar medo, insegurança. É o que acontece com Donato. Trabalhando como salva-vidas numa praia, ele se sente culpado por não ter conseguido salvar um rapaz de um afogamento. Quando surge Konrad, o amigo do rapaz, ambos passam a ter um relacionamento. Envolvem-se de tal maneira que Donato resolve viajar para a Alemanha (terra natal de Konrad).

Mas, até antes da viagem, Donato não se sente feliz. A culpa da morte do amigo de Konrad cerca os seus pensamentos. Ao mesmo tempo, vive com a mãe e o irmão menor no Ceará, lugar da Praia do Futuro. Mesmo com família, ele não se sente acolhido, nem preso. Mas, gosta do mar. Acha que uma das formas de liberdade é mergulhar, no que é chamado, carinhosamente, pelo irmão Ayrton de "Aquaman".



Só que, mesmo vivendo sua paixão com Konrad em seu país, Donato ainda se sente incompleto (ou, pelo menos, inquieto). O tempo passa, e os acontecimentos que se seguem vão tentar mostrar o lugar dele no mundo. Sentido da liberdade, e da própria vida, vão aparecendo em sua frente; como revelações. Basta Donato saber quem é, e o que quer fazer. Alguma maneira de redenção não virá com a ajuda de ninguém; ela será, necessariamente, individual.

"Praia do Futuro", como roteiro, apesar da profundidade que se propõe a abordar, não tem uma excepcional estória. É um estudo humano pra dentro, minimalista. Tendo como foco a figura do protagonista, o enredo fala de como as pessoas sempre buscam um abrigo, um lugar para chamarem de casa, algo acolhedor. E, que nem sempre esse lugar está onde se encontram as pessoas que amamos. Uma análise simples, mas, eficaz.



Saliente-se que a produção trata o relacionamento de Konrad e Donato com bastante naturalidade. Não há choques ou conflitos quanto a sexualidade dos dois. Pois, a intenção é mostrar duas pessoas com profundos sentimentos um pelo outro. Sem estranhezas ou debates pedantes. O que sobra na estória é o grande descontentamento com a sua vida, o que tanto roteiro, como direção, conduzem de forma firme, honesta, porém, sem maiores reviravoltas.

As atuações, em especial, a de Wagner Moura, estão boas, mas, como o ambiente (seja na Alemanha, seja na Praia do Futuro) se interpõe, muitas vezes, aos personagens, estes acabam sendo mais coadjuvantes de tudo o que se vê na tela. E, isso é bom, pois um foco excessivo na personalidade deles poderia desviar a atenção da reflexão que o filme nos convida a fazer.



Trata-se, portanto, de um filme muito bonito. Não tem um extraordinário enredo, mas, possui boas considerações sobre a vida, o cotidiano, os sentimentos de culpa, e, principalmente, a necessidade que temos de estarmos inseridos no mundo. Karim Aïnouz, que já nos tinha presenteado com "Madame Satã" e "O Céu de Suely", entrega mais um belo trabalho de sua filmografia.


NOTA: 8/10.

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