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Dica de Filme

"Django Livre"
2012
Direção: Quentin Tarantino


SANGRENTO FAROESTE NÃO É UM DOS MELHORES TRABALHOS DE TARANTINO, MAS, CONVENCE ATRAVÉS DE UM ROTEIRO ENVOLVENTE E DE DIÁLOGOS INTERESSANTES


Os filmes de Tarantino não devem ser "levados à sério" (no bom sentido). Isso porque ele faz, abertamente, um "cinema de homenagens", cujas referências vão desde os filmes de kung fu, até os "faroestes spaghettis". E, baseado nessas referências, Tarantino vê a oportunidade perfeita para exercitar o seu cinismo, o seu deboche, inclusive, alfinetando a própria indústria cinematográfica de vez em quando. E, essa percepção é determinante para apreciar um trabalho como "Django Livre", que, como toda produção no estilo "faroeste spaghetti", tem muitos acertos e muitos erros, mas, que, no final das contas, é um ótimo, mesmo que não seja algo definitivamente marcante.




A história, a mais simples possível, flerta não somente com um tema recorrente nos faroestes, mas, também com a própria obra "tarantinesca": a vingança. Nesse caso aqui, a vingança pertence a Django, um escravo do século 19, que vive nas fazendas norte-americanas, que acaba ser "comprado" com outros negros. Após ser resgatado no meio da estrada por um suposto dentista, o misterioso e enigmático dr. King Schultz, ele se junta ao médico naquela que é a real profissão deste: caçador de recompensas. Ao lado de Shultz, Django passa a cometer assassinatos por dinheiro e a ficar cada vez mais hábil no gatilho. Sua intenção, no entanto, é outra: salvar a sua esposa, Broomhilda, que foi "vendida" para um grande fazendeiro nas terras do Mississipi. Antes disso, porém, tentará acertar as contas com os carrascos que maltrataram tanto ele, quanto sua esposa, tempos atrás. O banho de sangue está apenas começando.

Sim, é verdade, nada de novo no front. O núcleo da trama é muito direto, conciso. Mas, nem por isso, deixa de ter valor em certos questionamentos que são feitos ao longo do filme. O mais provocativo, sem dúvida, é o fato de Django, para poder resgatar Broomhilda, ter que se passar por traficante de escravos. Visto pelos outros negros como um traidor, e servindo de chacota para a maioria dos brancos, o protagonista sente na pele o peso de ter que se rebaixar ao ponto de estar ao lado do opressor que lhe oprimiu por tantos anos. Só que, no decorrer da história, aparecerá outro personagem que se mostrará ainda pior do que Django: trata-se Stephen, uma espécie de mordomo de Calvin Candie (fazendeiro que está em posse de Broomhilda). Stephen, mesmo afrontando o patrão em algumas ocasiões, não parece ter nenhum pudor ao maltratar os outros negros da fazenda, o que dá uma boa oportunidade para o roteiro desafiar o espectador, não colocando, necessariamente, polaridades fáceis de distinguir, já que existem brancos que ajudam o protagonista, ao passo que há negros que se comportam como vilões.




Outro aspecto positivo na história são os seus ótimos diálogos (coisa que faltou no insosso "Os 8 Odiados" ano passado). Mesmo alguns deles sendo bobos ou involuntariamente engraçados, a maioria se encaixa de forma orgânica e nada forçada na narrativa, não deixando que as cenas caiam na verborragia enfadonha. Nesse sentido, os melhores momentos são protagonizados por Shultz e Candie, que conseguem envolver o espectador com o seu carisma, mesmo que sejam personagens com uma moral pouco adequada. E, até mesmo o humor, característica das obras de Tarantino, está aqui, mas, sem pesar a mão. Ao contrário, numa das sequências mais engraçadas, por exemplo, vemos um embate ridículo entre aqueles que viriam a ser o "embrião" da organização fascista Ku Klux Klan. Acertadamente, o tom da história mostra esses personagens de forma patética e dantesca, numa cena amparada unicamente pelos diálogos (aqueles com assuntos "diversos", que só o diretor sabe como colocar em seus filmes).

Obviamente, um dos aspectos mais marcantes da trama é o seu sub-texto anti-racista, mas, que não deixa espaço para maniqueísmos bobos, colocando o quanto a escravidão foi uma chaga no continente americano, mas, não delimitando claramente heróis e vilões. Na realidade, dados os métodos violentíssimos do protagonista, nem ele pode ser considerado uma espécie de "herói". Todos ali na história estão apenas aproveitando oportunidades, conveniências. Talvez, o único personagem que tenha alguma moral seja Shulz, que aceita ajudar Django no resgate de sua esposa, mesmo correndo risco de vida. Em relação aos personagens, o filme só pecou ao retratar Broomhilda, de início "apenas" como a esposa do protagonista, e depois, como um tipo de "donzela em perigo". Claro que a produção é uma homenagem aos pitorescos faroestes das antigas, mas, caberia, perfeitamente, uma espécie de subversão aqui, com Broomhilda sendo mais, digamos, "ativa" na história. Para alguém que já nos deu uma protagonista "motherfucker", como a Noiva de "Kill Bill", Taratino ficou nos devendo essa.




Mesmo o roteiro sendo tão bem amarrado, e tocando um assuntos sérios de maneira criativa, ainda assim, conseguimos ver algumas falhas no desenrolar da trama. A pior delas, sem dúvida, é no final do terceiro ato (e, da trama em si), onde a carnificina fica exageradamente incômoda, e o protagonista passa a ficar "imbatível demais", e é quando também acontecem muitas "conveniências" para que a história tenha um determinado desfecho. Tudo bem que absurdos faziam parte dos antigos faroestes, mas, como a narrativa, até aqui, estava envolvente, e buscando as soluções certas para os embates, esses absurdos que ocorrem no final ficam caricatos, e até um tanto vergonhosos. Nada que tire o brilho geral do filme, mas, Tarantino poderia ter se esforçado um pouco mais no tocante à conclusão da história, sem precisar deixar tudo tão "brega".

Porém, Tarantino continua sendo Tarantino, e se, no final, ele derrapou no roteiro, na direção, ele permanece imbatível. Sua fluidez em conta uma boa história continua impressionante, e as quase três horas filme não são nem um pouco percebidas, tamanho o domínio narrativo do cineasta. A trilha, a cargo do próprio diretor, mais uma vez, é claro, também é outro destaque, mesclando desde temas country até mesmo o hip-hop (!). O resultado, incrivelmente, dá certo. E, é evidente que a ótima qualidade do filme se deve (muito) às atuações. Mesmo um tanto sisudo, Jamie Foxx se si muito bem como o protagonista casca-grossa da trama. Mas, o espetáculo é mesmo de Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, como o dr. King Shultz e o fazendeiro Calvin Candie, respectivamente. Enquanto que o primeiro esbanja elegância e carisma com uma verborragia nem um pouco irritante, o segundo convence demais ao impor uma persona ameaçadora, quase de um psicopata. Quem também merece menção é Samuel L. Jackson, que mesmo a história não exigindo muito de seu Stephen, ele ainda consegue fazer um trabalho interessante.

E, o que temos aqui é mais um ótimo filme de Tarantino para ser degustado em todas as suas excentricidades. Não nem perto dos grandes momentos do diretor, mas, está bem à frente de outros filmes recentes dele. Uma produção, portanto, com todas as boas características que fizeram a fama do cineasta desde a década de 90 até os dias atuais, mas, que exagera demais em seu final, que, dado o tema do racismo, poderia ter sido mais provocativo, e menos convencional. Ainda assim, um ótimo e divertido cinema.


Nota: 8/10


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