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Dica de Filme

"Paraíso à Oeste"
2009
Direção: Constantin Costa-Gavras


APESAR DE NÃO SER TÃO "DIRETO" QUANTO EM TRABALHOS ANTERIORES, COSTA-GAVRAS CONSEGUE FAZER UM FILME BASTANTE POLÍTICO NAS ENTRELINHAS

Ok, eu sei que o termo "cinema político" causa verdadeira ojeriza a alguns cinéfilos. A desculpa é sempre a mesma: esse tipo de filme é panfletário demais, chato demais, ideológico demais, etc. Só que há décadas um certo Constantin Costa-Gavras vem mostrando um domínio impressionante nesse tipo de cinema, realizando produções imensamente questionadoras, talvez, para o desgosto de alguns, que prefiram algo que seja "somente" entretenimento. Só que, para Costa-Gavras, a arte pode ser bem mais do que isso, e, desde o estupendo "Z", de 1969, que ele utiliza o seu talento em prol de causas muito nobres e justas, mesmo que isso, hoje em dia, soe antiquado e careta demais. E, é quando chegamos a este "Paraíso à Oeste", que, numa leitura mais simplória, pode ser descrito como uma aventura de uma rapaz que desembarca como imigrante ilegal na França, e passa por diversos atropelos (alguns, até mesmo cômicos). Porém, o filme guarda uma reflexão bem maior e mais urgente do que possa aparentar.




O foco na narrativa se concentra em Elias. Nos primeiros minutos, o que sabemos dele é que se trata de mais um entre tantos imigrantes que chegam em alto-mar na Europa em busca de novas "oportunidades". Quando a embarcação em que Elias está é interceptada pela guarda costeira, este não pensa duas vezes, e pula na água, indo parar na costa da França. A partir dali, várias situações (tristes, dramáticas e engraçadas) vão acontecendo na vida no rapaz, e que farão ele questionar se o velho continente é, de fato, um éden, ou um inferno para os imigrantes. E, é claro que, no meio desses acontecimentos, nós, espectadores, faremos esses mesmos questionamentos (mesmo pra quem seja avesso ao tal do "cinema político").

Pra quem conhece o trabalho de Costa-Gavras, logo vai perceber um diferencial aqui: o humor leve, quase ingênuo da narrativa. Óbvio, não esperem aquele humor escrachado, bobo ou pastelão. Alguns momentos engraçados vêm justamente daqueles instantes em que Elias se sente deslocado ou incomodado com alguns costumes que ele não está acostumado (a cena da praia de nudismo, por exemplo, é muito divertida). Só que, evidentemente, não temos somente o humor presente aqui, mas, também (e, até certo ponto, predominante) um viés de crítica social muito forte. Logo no início do longa, pra se ter uma ideia, é mostrada uma sequência em que dois imigrantes aparecem mortos na praia próximo a um resort onde Elis está escondido, e, rapidamente, vemos que a grande preocupação dos hospedes granfinos do local é ou o incômodo por terem que nadar na piscina devido ao incidente, ou a insistência em tirarem fotos com seus celulares, como se aquela cena horrível fosse uma espécie de atração turística.




Em outras cenas, podemos enxergar nitidamente o furor do Costa-Gavras das antigas, como na parte em que Elias vai parar num fábrica que contrata somente imigrantes clandestinos, e, nesse ponto, ele percebe algo que vai ser determinante pra ele (e, pra nós): não existe um "bom lugar" para um imigrante em certos países. Pra eles, serão sempre dados os piores empregos, as piores condições de vida, os piores tratamentos. Mesmo com dinheiro, não lhes é dado o direito, sequer, de poderem comprar uma comida melhor. Claro, Costa-Gavras não é de todo pessimista, e, no meio de sua jornada, Elias encontra quem o ajude, quem lhe dê algum apoio. Mas, na maioria das vezes, o sentimento será o de completo deslocamento, como se ele não pertencesse a lugar nenhum, e, por causa disso, seja marginalizado, quase sempre, da pior forma possível.

Vários outros momentos (principalmente, no final) mostram uma bem-vinda simbologia sobre o enfrentamento do protagonista contra um mundo do qual ele não se encaixa de jeito nenhum, independente de onde esteja. Uma das falas do filme é emblemática nesse sentido: "O mundo anda tão absurdo que só a mágica para amenizar a realidade". A "mágica", então, seria uma maneira, uma forma metafórica de sobreviver de uma fronteira a outra, sendo explorado por por quem quer mão de obra barata, seja pelo estado, que, na figura da polícia, reprime e persegue os tão temidos imigrantes ilegais. A xenofobia que presenciamos ni filme não é forçada, nem caricata, mas, incômoda ao ponto de fazermos os questionamentos certos, sobre como a população nativa os trata, e como sofrem todo e qualquer estigma, como, por exemplo, generalizá-los como sendo terroristas, e não como pessoas em busca de oportunidades. Nesse sentido, a visão que Costa-Gavras traça da França, e, em especial, Paris, não é nada lisonjeira, o que prova que o seu discurso continua afiado.




Como em quase todos os filmes do cineasta grego, em "Paraíso à Oeste", as atuações estão bem naturais, com um evidente destaque para o ator italiano Riccardo Scamarcio, que faz de Elias um personagem adoravelmente tragicômico, uma pessoa um tanto inocente em meio a todo esse caos. E, o que dizer de Costa-Gavras, um autêntico veterano do cinema? Bem, é justo dizer que este não está entre os seus melhores filmes, mas, de maneira alguma, a experiência de assistí-lo é decepcionante. Mesmo sendo menos categórico e incisivo, aqui encontramos uma bela história, sendo contada de maneira leve, mas, não se esquecendo de seu subtexto social, algo que Costa-Gavras jamais abandonaria. Aqui, ele está apenas mais sutil, mais perspicaz, apesar de se alongar um pouco no desfecho da trama. Ainda assim, é um tipo de filme muito válido, que toca num assunto sério e atual, mas, sem precisar ser pedante. E, para desagrado de alguns, sim, continua sendo "cinema político" (e, da melhor qualidade).


Nota: 8/10


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