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Dica de Filme

"Corpo Elétrico"
2017
Direção: Marcelo Caetano


MELHOR FILME NACIONAL DE 2017, "CORPO ELÉTRICO" É UM TOCANTE E TRISTE PANORAMA DE VIDAS IMERSAS NA BANALIDADE DO COTIDIANO

É muito bom quando um filme começa com uma boa metáfora já no seu título. O corpo elétrico é o corpo que precisa de energia, pulsação, enfim, de vida. Mas, também pode significar um corpo destituído de sua humanidade, preso a uma rotina opressora, precisando extravasar para conseguir esse mínimo de vida. Um corpo que mistura-se ao maquinário de onde o seu dono trabalha, camuflando-se por entre as engrenagens dos sistema. Um corpo que busca esperança, prazer e liberdade. Em essência é disso o que trata o primeiro longa metragem do cineasta Marcelo Caetano.




O corpo, em questão, pertence a Elias, que trabalha em um ateliê de roupas. Ao mesmo tempo, o corpo pode ser genérico, referindo-se a todas as outras pessoas que circundam Elias, e que, de um jeito ou de outro, sofrem o que ele sofre: o peso da rotina, uma vida estável, mas, sem grandes ambições, nenhuma perspectiva que vá além do básico, e muita diversão nas horas vagas para sublimar um pouco essa angústia interna. Uma angústia que poucos têm ciência, mas, que todos possuem. E, o microcosmo do ateliê onde Elias trabalha é perfeito para demonstrar isso, desde o preconceito descarado que ele sofre de um dos gerentes, até uma cena, por exemplo, em que uma mulher passa mal no local, e as outras pessoas, em geral, continuam a trabalhar, como se nada estivesse acontecendo. É a mecanização dos sentimentos, da empatia... do corpo!

Ao mesmo tempo, é evidenciada a amizade entre Elias e várias pessoas que trabalham no ateliê. Num plano sequência muito bem filmado, a câmera os acompanha enquanto caminham em direção a um bar. Nesse meio tempo, personagens entram e saem de cena, conversando sobre diversos assuntos da vida pessoal de todos. A sequência, longe de ser o caos que poderia ter sido, é otimamente estruturada, dando tempo e espaço para cada personagem falar, e se o espectador não estiver prestando atenção em quem está em primeiro plano, prestará atenção em quem está em segundo plano, pois, todos os atores continuam interpretando, mesmo fora do enquadramento. São minutos preciosos, que nos colocam imersos na trama, e faz com que comecemos a ter apego pelos personagens. 




Outro ponto forte do filem são os diálogos. Um dos principais problemas de alguns representantes do cinema nacional, sejam eles independentes, ou não, é justamente essa questão. As falas de boa parte dessas produções parecem forçadas demais, falsa demais, anti-naturais demais; Em "Corpo Elétrico", ao contrário, os diálogos soam fluidos, espontâneos, sem aquela necessidade de se produzir frases de efeitos para serem reproduzidas em redes sociais. São diálogos ditos por personagens que poderíamos encontrar na rua, ou conhecer no trabalho, no bar, em qualquer lugar. Chega a ser quase documental nesse aspecto.

Há um aspecto muito positivo no longa que é também a composição dos personagens, e como eles interagem entre si. Elias, meio que o "protagonista" da trama, ora se mostra uma pessoa muito doce, ora um pouco arredio e antipático. No meio disso, ao longo da história, porém, conseguimos enxergar apenas uma pessoa "perdida", ansiosa por fazer algo diferente na vida, mas, sem muitas perspectivas. Outro bom personagem que merece menção é Fernando, imigrante da Guiné Bissau. Numa conversa especialmente bem significativa com Elias, ele conta que manda, com regularidade, dinheiro para a sua família, em seu país de origem. Já, Elias, mal tem contato com a família, na Paraíba, de onde poderíamos deduzir que se trata de algo ligado ao preconceito, já que Elias é gay assumido. 




E, por falar nesse aspecto, é bastante interessante que "Corpo Elétrico" aborda abertamente, e sem pudores, a temática LGBT, sem que o tema soe estereotipado ou caricatural. Aqui, o público gay não é tratado como "atração de circo" para fazer as pessoas rirem, e sim, como pessoas normais, comuns, que nem você e eu, e que buscam apenas e tão somente a felicidade de dias melhores, e também a aceitação por quem são. Ou seja, seres humanos. Obviamente que o preconceito está presente, mas, ele se mostra através de pequenos detalhes, olhares tortos, conversas miúdas, etc. E, isso pode ser mais poderoso do que algo que fosse panfletário. 

Ressalte-se também que as atuações de todos aqui estão ótimas, em especial, as de Kelner Macêdo, como Elias, e Lucas Andrade, que faz Wellington. Já, a direção de Marcelo Camelo se mostra bastante segura, em alguns momentos, indo além da narrativa padrão, e nos presenteando com alguma ousadia narrativa. O roteiro, escrito por ele e Gabriel Domingues, e com colaboração de Hilton Lacerda, é muito bem estruturado, focando nas questões certas, sem exageros. O único problema do filme talvez seja o seu ritmo demasiadamente lento no início, mas, a partir do momento em que percebemos que essa "lentidão" era necessária para ambientar bem o espectador, esse é um "defeito" simplesmente desculpável.

Até agora, "Corpo Elétrico" pode ser considerado como o melhor filme nacional de 2017, e um dos melhores do ano em geral. E, é um título merecido. Contando a história de pessoas comuns e, consequentemente, as suas angústias de uma maneira naturalmente bonita (mesmo que, por uma certa ótica, triste), o filme não força para melodramas, nem apela para caricaturas ou gracejos sem sentido. É, isso sim, a melancólica narrativa de vidas jogadas nessa falta de perspectiva da qual vivemos, tentando fazer com que os seus corpos não parem, e continuem "elétricos".


Nota: 9/10


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