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DICA DE FILME

"LAVOURA ARCAICA" (2001)




"Quanto mais unida a família, mais violento é o baque"

Expurgo das dores da alma. Algo caro para todos nós, principalmente aqueles com sensibilidade acima da média para as coisas do mundo. Nem todos possuem o equilíbrio necessário para suportar tamanha enfermidade, e muitos sucumbem. Raduan Nassar entendeu isso, e, rapidamente, mostrou-nos sua visão de mundo, para depois, recolher-se no isolamento. Usou, como toda grande pessoa, a arte para expor suas mais profundas inquietações. Escreveu dois grandes livros de nossa literatura: "Um Copo de Cólera" e "Lavoura Arcaica". Enquanto o primeiro partia de uma briga de casal para expandir os limites de sua crítica para toda a sociedade, o segundo traçava a desunião de uma conservadora família para falar das contradições do mundo, voltar novamente a falar da família, e assim sucessivamente, nesse jogo onde os universos, muitas vezes, confundem-se.

Como se vê, transpor duas obras assim para o cinema seria uma tarefa das mais densas. A adaptação de "Um Copo de Cólera", por exemplo, mesmo contando com um texto brilhante, ficou, como filme, extremamente medíocre. Felizmente, precisou existir um cineasta como Luiz Fernando Carvalho para dar a um texto de Nassar o devido respeito que merece. O resultado ficou não menos que soberbo.




"O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio"

"Lavoura Arcaica", perdão o clichê, é um filme difícil. Não que ele seja incompreensível, mas suas mais de duas horas de duração exigem uma entrega do espectador, não bastando apenas assisti-lo, mas, senti-lo, alegrar-se, incomodar-se e, desesperar-se com ele. Começa com uma longa cena de masturbação do personagem André, intercalada com o som de uma locomotiva. Após o gozo do ato, ele apenas para, e olha com expressão vazia para o nada, como se precisasse de alguma válvula de escape que pudesse impulsioná-lo a algum lugar. Bastante sensorial.

Então, Pedro, seu irmão, bate à porta de seu pequeno e sujo apartamento para tentar buscá-lo de volta, já que ele fugiu da fazenda da família por não suportar mais o convívio com seus pais e irmãos. O que se segue é a expurgação. A princípio, Pedro se mostra firme em seus princípios e relutante em relação às ações de André. Típico confronto entre irmão mais velho e experiente e irmão mais novo e imaturo (pelo menos, aparentemente). Porém, o tempo passa... E, André vai expondo seus motivos, um a um, desesperado, acuado, entregue e, acima de tudo, honesto. Não vê mais sentido em nada (família, religião, amigos, amores). Não se trata de um suicida, mas apenas de uma criatura exausta com as incompreensíveis obrigações que as pessoas lhe oferecem.




Sentindo-se incapaz de continuar longe da família, mesmo repudiando-a, André volta com Pedro para casa. E, lá, na conversa que terá com seu rigoroso pai, irá se desnudar para ele como nunca vez. Aceita ser submisso às regras do lugar, mesmo tendo certeza de que, nas suas palavras, "não há grandeza, como se dizem, no amor familiar".

Vale ressaltar que a religiosidade também se faz muito presente na obra. O pai de André mostra-se exigente quanto a postura dos filhos nesse aspecto, e, sempre que pode, conversa com eles à mesa, usando parábolas bíblicas para passar certos ensinamentos. Porém, ele não é, de fato, uma má pessoa. Como o próprio texto expõe, é apenas mais um que está perdido nos arroubos da vida, usando a religião como refúgio. No entanto, em outra cena, em que André interpela sua irmã numa pequena capela, é mostrado que uma educação estritamente religiosa pode provocar seu completo oposto: uma severa profanação dos dogmas mais sagrados.




"A impaciência também tem seus direitos"

Logo de início, podemos notar que as atuações aqui são magistrais, em especial, de Selton Melo e Raul Cortez. Na conversa de pai e filho na mesa, após o regresso deste, a cena é toda primorosa, mostrando a entrega total dos atores aos seus personagens. Não que exista alguém que esteja ruim em seu papel neste filme, mas, com certeza, esses dois estão em outro patamar. Também ajudou bastante a fotografia belíssima de Walter Carvalho e a direção envolvente de Luiz Fernando. E, por fim, claro, temos o texto de Nassar. Palavras postas em papel que mereciam realmente uma adaptação dessas, com cuidado e esmero.

"Eu posso ser o profeta da minha própria história"

O expurgo sempre é necessário. Mesmo que a inércia cotidiana nos obrigue a aceitar tudo de bom grado, em algum momento, precisaremos expor nossos demônios. O texto de Raduan Nassar em "Lavoura Arcaica" não só proporcionou uma das melhores obras do nosso cinema, mas um valoroso objeto de reflexão, uma forte mexida nas ideias, um alarme para toda essa mediocridade, tão latente. São diversas mentiras aceitas, entre elas, tudo o que se relaciona com o seio familiar. Nossas impressões são apenas fumaça, um esboço opaco de uma realidade que teimamos em esconder. "Lavoura Arcaica" (livro e filme) nos diz isso e muito mais.




Nota: especificamente, este filme ficará sem nota. Não julgo necessário.

Comentários

  1. Excelente análise meu caro. Ainda considero "Lavoura Arcaica" a obra mais próxima da perfeição já produzida por nosso cinema!

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  2. Sim, nobre. Não sei se chega a ser o melhor brasileiro que já assisti, pois "Terra em Transe" também é fenomenal.

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