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DICA DE FILME

"O HOMEM DUPLICADO" (2013)




Solidão, rotina, vazio. Solidão, rotina, vazio. Solidão, rotina, vazio. Um ciclo sem fim ignorado pela maioria absoluta das pessoas em seu cotidiano. Inclusive, por Adam. Sua inquietação não vai além de um mero incômodo. Ele precisa, urgentemente, de outra vida. Ele sabe disso; todos nós sabemos. Sua profissão de professor de História, seu romance com uma jovem, sua relação com a cidade onde mora; tudo está no piloto automático. Não existe prazer genuíno; apenas, obrigação de seguir uma linha reta, sem mudanças ou emoções bruscas.

Essa é a espinha dorsal do filme "O Homem Duplicado", baseado em obra do escritor José Saramago, e dirigido por Denis Villeneuve, cineasta canadense do ótimo "Incêndios" e do mediano "Os Suspeitos". Deste último, por sinal, vem o ator Jake Gyllenhaal, repetindo a parceria com o diretor em menos de um ano. Sua representação do personagem Adam é boa e convincente; um dos (muitos) pontos positivos do longa.




Voltando à estória, Adam passa a assistir filmes para se distrair e quebrar um pouco de sua rotina. Só que, um dia, vê um ator que, estranhamente, é muito parecido com ele; até demais. Esse ser idêntico (sua perfeita duplicata) chama-se Anthony. A semelhança, no entanto, é somente física, pois a personalidade dos dois é bem distinta. Enquanto um é cheio de pudores e escrúpulos, o outro é impulsivo e de caráter duvidoso. O encontro deles suscita a possibilidade de um viver a vida do outro.

"O Homem Duplicado" é repleto de simbolismos. O mais forte, sem dúvida, é a presença bizarra de algumas aranhas. Na parte metafórica, pode significar o poder feminino, ou na psicanalítica, desejos sexuais reprimidos do protagonista. Ambas as interpretações são coerentes, diga-se, pela vida que leva Adam, principalmente pelo fato da presença da mulher na sua vida não ser realmente resolvida.




Tecnicamente, assim como em outros filmes do diretor, este é bastante criativo, com cenas parecendo pinturas e pouco foco, como se as imagens fossem sonhos (em alguns casos, pesadelos). Vale destacar que as tomadas externas são bastante abertas, e as internas, bem fechadas, como se passassem a ideia que, no mundo atual, todos estamos trancafiados em nossos pequenos mundos, cada vez mais egoístas e individualistas. Mundos, esses, claustrofóbicos e opressores. Essa temática, que dá respaldo para inúmeros debates, é bem abordada ao longo do roteiro.

Muito se questiona do ritmo lento do filme, chegando a classificá-lo de enfadonho. No entanto, não há como acusar  Villeneuve de oportunismo ou de se render a uma estética. A contemplação já faz parte de sua identidade artística há tempos. Até mesmo no conceituado "Incêndios", há inúmeras cenas paradas, reflexivas. E, isso não é ruim; somente estamos acostumados ao ritmo acelerado do cinemão hollywoodiano, que despeja imagens sem muito conteúdo.




"O Home Duplicado" é, por vezes, parecido com um enigma, precisando ser codificado e sentido aos poucos. Claro que, em algumas cenas, o diretor poderia ter imprimido uma narrativa mais enxuta e, em outras, ter se alongado um pouco mais. Porém, o que importa é que a essência da mensagem não se perde, muito pelo contrário.

Esse, realmente, é um filme incomum. Típico caso de dividir opiniões. Como cinema, está acima da média de muita coisa feita hoje. Pelo menos, ele consegue ser melhor que "Os Suspeitos", produção anterior de Villeneuve. Com algum ou outro ponto mais explorado, ele ficaria mais completo. De qualquer jeito, assistir algo do diretor é sempre uma experiência única, e esse aqui não é exceção.


NOTA: 8,5/10.

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