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DICA DE FILME

"QUANTO VALE, OU É POR QUILO?" (2004)




Fazer cinema crítico hoje em dia pode parecer fácil ou simplesmente clichê. Isso porque quando se resolve rodar um filme assim, os resultados geralmente possuem duas falhas. Uma é a pretensão de seus realizadores em realizarem a última obra-prima do momento. Esse problema é mais sutil, porém, torna a coisa extremamente pedante (vide "O Som ao Redor"). Já, a outra falha resvala na ingenuidade com que se abordam certos assuntos. Muitas vezes, por falta de conhecimento prévio, as críticas se tornam rasas.

O diretor Sérgio Bianchi está à margem dessas armadilhas. Afinal, se tem duas coisas que ele não se enquadra é em ser ingênuo e mal-intencionado. Isso se deve a duas palavras-chaves que estão presentes em toda a sua obra (com mais ênfase em "Quanto Vale, ou é Por Quilo?"): ironia e criatividade. Porém, que não haja confusão a respeito dessa ironia, pois ela está presente no sentido de passar a mensagem da forma mais direta possível, sem arrodeios, e não para maquiar os fatos.




Desde suas primeiras produções que Bianchi sempre se mostrou um incorformado e um provocador, mas não desconhecedor daquilo que fala. E, essa característica está bastante presente neste que é, talvez, o seu melhor filme. Sendo mais incisivo do que muitos documentários ou matérias jornalísticas, a produção é composta de paralelos e aparências.

Os paralelos são históricos. Em um determinado momento, vemos capitães do mato ainda no período colonial no Brasil caçando escravos. Já, em outro (esse, no tempo atual), acompanhamos um rapaz desempregado, que aceita o cargo de matador em uma comunidade, e, como não poderia deixar de ser, seus alvos são pessoas pobres e negras. A crítica pode parecer óbvia, mas é pungente e nada contraditória.




As aparências estão na maior parte do roteiro, que expõe, sem dó nem piedade, como a miséria (em todos os seus sentidos) é o lucro de alguns, e como sua permanência é importante para tentar mostrar alguma espécie de altruísmo, sejam de pessoas comuns, sejam de grandes empregas. Como um dos personagens mesmo diz: responsabilidade social agrega valores, e os consumidores gostam disso. No entanto, o outro lado da moeda logo vem à tona: em muitos casos, ou isso serve apenas para ter status social ou serve como fachada para atividades ilícitas.

Cena após cena, Bianchi traça esse panorama de hipocrisia. Outros temas surgem, como racismo, criminalidade e violência policial, e, mesmo não tendo o mesmo destaque, reforçam, na trama, as críticas que estão em primeiro plano. Exemplo disso é uma senhora que, mesmo após um AVC, precisa trabalhar como faxineira do prédio ondem ocorrem os ditos "trabalhos sociais". Ela ainda possui um filho que encontra-se preso, e, a partir daí, o foco são as condições sub-humanas das nossas cadeias, comparadas, não por acaso, aos antigos navios negreiros.




É verdade que as atuações ficaram um tanto exageradas e esquemáticas, com algumas exceções, como a de Lázaro Ramos. No entanto, a força do roteiro e a direção segura de Bianchi se sobressaem a esse deslize. O cineasta ainda reserva para o final um fio de esperança, uma outra possibilidade, onde tudo depende apenas de uma tomada de postura. Direto e claro, sem meios termos. É a catarse derradeira, a "sacudida" que o espectador necessita.

Tendo um grande poder incentivador, "Quanto Vale, ou é Por Quilo?" é um filme importante de ser assistido em dias nos quais a indiferença da sociedade para com a dor alheia é tão latente. E, portanto, um "tour de fource" de Bianchi no meio de tanta mediocridade.





NOTA: 9,5/10.

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