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DICA DE DISCO

"JARDIM ELÉTRICO" (1971)




Desde que surgiu, em meados da década de 60, Os Mutantes tiveram a benção dos Tropicalistas. Em especial, Gil e Caetano ficaram vidrados na banda, tanto é que o próprio Gil se apresentou com ela no Festival da MPB em 67, quando tocaram juntos "Domingo no Parque". Já, Caetano resumia o grupo assim: "Os Mutantes são demais!" E, eram mesmo...

Essa tietagem, no entanto, ia além. É de autoria de Caetano e Gil muitas músicas que fizeram parte do repertório d'Os Mutantes ao longo de sua carreira, como "Batmacumba", "Panis et Circenses" e "Baby". Como se vê, certos padrinhos valem o quanto pesam...




Passado o estardalhaço desse Festival de 67 e do sucesso do fabuloso primeiro disco, Os Mutantes lançaram outros dois excelentes álbuns até viajarem para a Europa em turnê. Lá, já pensavam em como conquistar o mercado internacional. Com essa visão, gravaram cinco músicas que deveriam sair num lançamento intitulado "Tecnicolor" (o que só aconteceu 29 anos depois, no ano de 2000!).

Como "Tecnicolor" não viu a luz do dia naquele momento, resolveram completar aquilo que seria o disco "Jardim Elétrico". E, esse é talvez o trabalho mais debochado do grupo, com músicas bastante "espirituosas", tais como "El Justiciero", "It's Very Nice pra Xuxu" e "Portugal de Navio". Cabe lembrar aqui uma inscrição abaixo da canção "Benvinda" que dizia: "Qualquer semelhança com Tim Maia é mera coincidência."




Inclusive, interessante notar como eles driblavam a censura apenas com a mudança de palavras. Em duas canções de "Jardim Elétrico", por exemplo, as letras faziam menção a palavrões, mas apenas sugeriam algo do tipo. Com certeza frases como "Eu quero que você se... top top!" ou "Vou te mandar... pra Portugal de navio!" devem ter deixado os censores de cabelo em pé!

Os Mutantes, porém, não eram somente bom humor. O som mesclava atualizações da bossa-nova ("Baby"), musicalidade latina ("El Justiciero"), sons vigorosos de rock'n roll ("Jardim Elétrico" e "Saravá"), além da já citada "homenagem" ao soul de Tim Maia. Destaques para a potente guitarra de Sérgio Dias e a alucinante bateria de Dinho Leme.




Não à toa, "Jardim Elétrico" está na lista dos 100 melhores discos da música brasileira de todos os tempos, ocupando a 72ª posição (muito justo!). Num período em que o rock brasileiro se limitava aos rapazes bem comportados da Jovem Guarda ou às viagens lisérgicas dos tropicalistas, Os Mutantes faziam uma música que não se enquadrava nesses rótulos; e, em mais nenhum, é bom dizer.

Esse álbum resume tudo o que a banda foi: escrachada, romântica, louca, frenética, genial. Um verdadeiro clássico, que precisa ser ouvido nesses tempos onde o rock brasileiro está padronizado, quase inofensivo.




Vida longa aos Mutantes!


NOTA: 9,5/10.

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