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DICA DE FILME

"CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS" (2005)
Direção: Marcelo Gomes.


Nos últimos anos, o cinema brasileiro vem nos presenteando com ótimas produções. Tudo bem que, de vez em quando, aparecem aquelas obras pedantes, com um baita esquema de marketing, mas que, no fundo, são belos engodos. Felizmente, são a exceção. Ultimamente, filmes como "Cinema, Aspirinas e Urubus" estão sendo a regra....

Tendo como estrutura uma espécie de roadie movie, ele nos mostra, de maneira bem honesta, a relação entre Ranulpho (sertanejo à procura de trabalho) e Johann (alemão que se encontra no sertão pernambucano para vender a mais recente novidade da medicina à época: aspirinas). Ambos, de algum modo, são ariscos e arredios, porém, mesmo sem demonstrarem tão explicitamente, sabemos que os dois nutrem uma amizade sincera entre si.



O fato do filme se passar no ano de 1942, auge da Segunda Guerra, é providencial para a trama, pois isso irá deixar Johann em conflito, principalmente quando o Brasil declara guerra aos alemães e aliados, e ele, por lei, precisa ir pra fora do país, ou aceitar ser levado a um campo de concentração em SP.

Nesse momento, vamos ver uma aproximação ainda maior entre os dois amigos. Com o tempo, um passa a compreender melhor o mundo do outro. Johann entende porque Ranulpho é tão amargo, e este descobre os motivos que levam seu companheiro de viagem a ser tão aventureiro.


O roteiro, mesmo simples, desenrola assuntos interessantes. Identificamos desde questões políticas sobre a guerra e a condição do sertanejo, até pontos mais intimistas. Temos a eterna busca por identidade (Johann sente-se incomodado, às vezes, por ser um estrangeiro no meio de costumes que não conhece) e a aceitação do outro, com suas óbvias diferenças, mas sabendo que se trata de alguém tão humano quanto.

Os atores estão excelentes em cena, com os eventuais sotaques de suas respectivas terras, mas sem soar nada forçado ou caricato. A fotografia, muitas vezes saturada e desoladora, dá o tom amargo e triste em algumas situações, e em outras, mostra-se mais nítida, como se demonstrasse o nível de esperança dos personagens. Uma esperança compartilhada conosco, o que torna a jornada deles bastante emocionante.


"Cinema, Aspirinas e Urubus" pode se gabar de não ser facilmente rotulável. Há partes tristes, mas que não são piegas; há partes reflexivas, porém, sem serem prepotentes; e tem partes alegres e descontraídas, porém, sem exageros. No geral, é uma belíssima obra sobre a vida e suas angústias, mas também sobre esperança e a fé.

Um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos, sem dúvida.


NOTA: 9/10.

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