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DICA DE FILME

"TRANSCENDENCE - A REVOLUÇÃO" (2014)
Direção: Wally Pfister.


O que anda acontecendo com o público e a crítica especializada em cinema, hein? Tudo bem que quase tudo o que faz sucesso não é, necessariamente, sinônimo de qualidade, e, não raro, as melhores coisas são aquelas que estão longe dos holofotes.

Mas, tem uma penca de ótimos filmes feitos em Hollywood nos últimos anos que estão sendo relegados ao esquecimento ou simplesmente estão sendo tachados de "lixo". Exemplos não faltam: "O Nevoeiro", "O Preço do Amanhã", "Uma Noite de Crime"... Todos muito bons dentro de suas propostas, e que ousaram mostrar um pouco além para se diferenciarem do resto.

No entanto, são os heróis da Marvel e as adaptações ruins de livros igualmente ruins os constantemente bajulados, muitas vezes, alçados ao panteão das grandes artes. Pois é; não dá pra entender...



Com isso, chegamos a "Transcendence", mais recente filme com o sempre ótimo Johnny Depp. Essa produção se enquadra perfeitamente na descrição acima, ou seja, um longa que explorou muito bem suas ideias, mas que não foi devidamente compreendido.

Talvez, o maior pecado dele tenha sido sua divulgação. "Transcendence" foi vendido como uma super-produção de ficção científica, coisa que ele não é. Trata-se (vejam só) de um drama intimista, bonito e bem construído, de um casal, embalado por algumas pitadas de ficção científica e ação. Eis a diferença.

Porém, desde "Matrix", tudo o que vem com essa embalagem tem que ser movimentado, e recheado de tiroteios e efeitos mirabolantes. Resultado: tanto público quanto crítica não perdoaram. Colocaram "Transcendence" como uma decepção, o que está longe de ser.


A estória, por si, já é fascinante: acompanhamos, de início, a trajetória do dr. Will Caster, o mais famoso pesquisador sobre inteligência artificial dos nossos dias. Só que seus avanços científicos desagradam um grupo de ativistas que acreditam que essa nova tecnologia pode ser prejudicial à humanidade.

É então que Caster sofre um atentado, e sobrevive. Mas, descobre que a bala estava infectada, causando uma grave enfermidade, o que lhe dá apenas alguns meses de vida. Prestes a morrer, consegue convencer sua esposa Evelyn e seu amigo Max a fazerem o "upload" de sua mente para o computador, fazendo dele o primeiro caso de verdadeira inteligência artificial que se tem notícia.

Só que tanto o governo quanto os ativistas que atentaram contra sua vida anteriormente veem nisso uma grande ameaça, pois a mente de Will está se expandindo muito rápido, e isso pode acarretar num controle desproporcional da vida humana.


A partir daí, seria ação do início ao fim, certo? Errado!

Desse instante em diante, o filme passa a ficar mais lento e introspectivo, com pouquíssima movimentação, e com raros (mas, eficientes) efeitos especiais. O que pouca gente entendeu é que o foco não é uma "batalha do bem x mal", como vemos tantas vezes em produções do gênero. É uma estória reflexiva sobre os limites do poder e da consciência. Até que ponto as pessoas podem ser ajudadas, para, depois, tornarem-se escravas?

Só pra ilustrar: na base que Will "constrói", ele recebe vários moradores locais com diversas enfermidades; todas, sem solução pela ciência usual. Usando de nanotecnologia, ele vai curando essas pessoas, mas com um adendo: implanta microchips nelas, deixando-as conectadas a ele. Todas ainda possuem autonomia, mas podem ser comandadas para as tarefas que Will quiser.


Então, fica a questão: é certo livrar as pessoas de seus problemas, mas deixá-las sob alguma espécie de controle? Com o uso indiscriminado da ciência, não estaríamos nos tornando deuses?

São esses debates éticos que vão pontuando o filme ao longo de sua duração, sempre com bastante equilíbrio e evitando os lugares-comuns. Paralelo a isso, vemos o drama de Evelyn, que ainda ama Will, mas não concorda com os métodos que ele passa a usar após ter virado "uma memória digital".

Muito se criticou as atuações, principalmente, a de Johnny Depp. Particularmente, não vi nada demais nelas. Não chegam a serem fabulosas, porém, todos os atores (em especial, Rebecca Hall e Morgan Freeman) estão bastante seguros em seus personagens.


Mas, o que chateou muita gente deve ter sido mesmo o andamento do filme. Calmo, introspectivo, reflexivo, um pouco denso, e algumas vezes romântico. Não são características que se esperam em uma super-produção de ficção científica, concordam? E é justamente isso que a torna especial.

Mesmo que de forma não tão aprofundada, "Transcendence" quebrou alguns paradigmas, e como público e crítica estão hoje em dia numa certa zona de conforto, ele pagou seu preço, sendo duramente hostilizado e rotulado como um filme ruim.

Que tal a gente "transcender" a mediocridade atual, e passar a dar crédito a produções bem acabadas como esta? Assim, damos a possibilidade de suas ideias serem melhor elaboradas em filmes futuros, e nos salvamos de super-produções badaladas (e banais).


NOTA: 8/10.

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