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DICA DE DISCO

"AVE SANGRIA" (1974)




Alguns trabalhos artísticos são reverenciados por anos, e, ainda hoje, continuam influentes. Por exemplo: às vezes, basta o lançamento de apenas um disco para transformar uma banda num mito. Com o Ave Sangria aconteceu exatamente isso.

Oriunda do Movimento "Udigrúdi", que misturava a cultura local com a psicodelia da época do Woodstock, o grupo teve carreira meteórica. Com certa dificuldade, gravou seu primeiro disco, mas sucumbiram pouco tempo depois.

No mesmo ano, fizeram o último histórico show, chamado "Perfumes e Baratchos", no Teatro de Santa Izabel, em duas noites com ingressos esgotados.




O próprio disco "Ave Sangria" divide opiniões até entre os ex-integrantes da banda, que não ficaram totalmente satisfeitos com o resultado. E, de fato, percebe-se que o ótimo potencial do grupo não foi devidamente explorado.

A sonoridade, especificamente, ficou menos pesada do que o esperado, parecendo um Quinteto Violado enveredando para o rock. Mesmo assim, toda a poesia a que se propunham está aqui, em letras muito "viajadas".

O disco começa calmo, quase progressivo, em "Dois Navegantes". A mesma toada é seguida pela música seguinte, "Lá Fora", só que esta com umas passagens um pouco mais aceleradas.




"Três Margaridas" tem um "quê" de Geraldo Azevedo e Alceu Valença das antigas. Umas das melhores canções do álbum vem a seguir, "O Pirata", com sua exuberante linha de guitarra, e uma ótima letra:

"NÃO SE ILUDA, MINHA CALMA NÃO TEM NADA A VER, SOU BANDIDO, SOU SEM ALMA E MINTO, MINHA CASA É O REINO DO MAL, O MEU PAI É UM ANIMAL, MINHA MÃE HÁ MUITO QUE ENLOUQUECEU."

"Momento na Praça" tem umas variações de sonoridades que, inclusive, lembram muito os Novos Baianos, da época do "Acabou Chorare". "Cidade Grande" é uma música que lembra muito Jethro Tull, pelo andamento tranquilo, com uma explosão no refrão.




É aí que surge um dos grandes momentos do disco: a irreverente "Seu Waldir". Com uma sonoridade calcada no samba-rock, o ritmo dela é contagiante.

Por sinal, a história oficial conta que essa faixa foi denunciada aos sensores do governo pela esposa do colunista social João Alberto, que se senti escandalizada pela explícita "apologia ao homossexualismo"!

"Hei Man" e "Por Que?", as canções seguintes, possuem corpo e espírito do Movimento Armorial, num clima que lembra muito nossa cultura de raiz. Chegam a ser quase bucólicas.
..



A partir daqui, as músicas começam a ficar mais pesadas tanto em sonoridade quanto em temática. A nervosa "Corpo em Chamas" é um rock'n roll que em algumas passagens nos remete ao T-REX. Eis um trecho dela:

"QUANDO EU BOTAR FOGO NA ROUPA, VOCÊ VAI SE ARREPENDER DO QUE ME FEZ, VOCÊ VAI VER MEU CORPO EM CHAMAS PELAS RIAS, E O POVO TODO HORRORIZADO."

Chegamos à melhor música do disco: "Geórgia, A Carniceira", que une uma sonoridade incrível com uma letra pra lá de psicodélica e tenebrosa. Duvidam? Então, vejam:

"GEÓRGIA, A CARNICEIRA DOS PÂNTANOS FRIOS, DAS NOITES DO DEUS SATÃ, JOGANDO BOLICHE COM AS CABELÇAS, DAS MOÇAS MORTAS DE CIO, NO LEVANTAR DAS MANHÃS DE ABRIL, SOLAR."




E, finalmente, o disco se encerra com a instrumental "Sob o Sol de Satã", que remete um pouco ao guitarrista Carlos Santana. Ótimo desfecho.

Só que, infelizmente, a banda só durou este álbum, Depois, cada um foi viver seu rumo, e só vieram a se reencontrarem como a Ave Sangria 40 anos após (em 2014!), para um show comemorativo no mesmo Teatro de Santa Izabel, de onde se despediram antes.

Nessa ocasião, não só relançaram o disco em vinil, como o lançaram, pela primeira vez, no formato inédito de CD. O show, como era de se esperar, teve os ingressos esgotados.

Prova de que a boa música persiste.


NOTA: 9/10.

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