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DICA DE FILME

"Amen." (2002)
Direção: Constantin Costa-Gavras


A consciência humana é uma eterna encruzilhada. Muitas vezes nos deparamos com um mal feito por nós mesmos, apesar das supostas boas intenções em nossas ações. Kurt Gerstein, oficial da SS nazista, viveu esse dilema. Tendo desenvolvido um mecanismo que visava purificar água para os batalhões, viu seu trabalho sendo usado para o extermínio mais rápido do povo judeu.

Paralelo a isso, sua crença cristã vai cobrar um preço altíssimo, principalmente pelo fato da alta cúpula da Igreja Católica ter se omitido perante o Holocausto. Diante disso, ele vai travar um verdadeiro "tour de force", enfrentando as forças armadas que ele próprio faz parte e a poderosa instituição da Igreja.


















Com esse tema, baseado na peça "O vigário", de Rolf Hochhuth, o sempre competente diretor Costa-Gavras (do filme "Z") realiza um filme tenso, ancorado quase que exclusivamente nos diálogos. Algumas cenas dão uma fluidez peculiar à narrativa. Exemplo disso, são as várias imagens que mostram trens de carga saindo dos campos de concentração vazios e voltando com suas portas fechadas.

As atuações são claras, não tendo alguma que, necessariamente, seja um destaque absoluto, e o roteiro prima por oferecer a indignação necessária ao espectador, no tacante à religião e suas politicagens. Aqui, é tudo muito bem feito, e as duas horas do filme passam rápido (apesar de um tanto incômodas).




O cartaz de divulgação de "Amen." foi uma das causas de sua polêmica, ao misturar a cruz cristã com a suástica nazista. Na época, o secretário-geral da Conferência Francesa de Bispos, Stanislas Lalanne, acusou a propaganda de "ferir a dignidade dos fiéis". "A imagem mistura de forma inadmissível Jesus Cristo e a barbárie nazista", censurou.

Em contrapartida, o diretor Costa-Gavras deu sua opinião sobre o silêncio da Igreja Católica a respeito do Nazismo: "O Vaticano, naquela época, deveria ter falado. Porque eles sabiam o que estava acontecendo. Não sei se poderiam ter salvado judeus ou ciganos. Mas eles poderiam ter resistido."


Uma produção, sem dúvida, triste, e um tanto polêmica (desculpem o uso de uma palavra tão prostituída), porém, que faz refletir sobre qual lado da moeda queremos ficar, e o porquê.


NOTA: 9,0/10.

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