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DICA DE FILME

"Ezra" (2007)
Direção: Newton I. Aduaka.



Alguns filmes, de tão realistas, não parecem ficção, e sim, documentário. É o tipo de produção que se utiliza dos meios narrativos do cinema convencional para contar uma estória com o máximo de impacto possível, como se estivéssemos no calor dos acontecimentos na tela. Esse nível visceral de imersão foi visto de forma bem competente em "Cidade de Deus", por exemplo.

"Ezra", longa do nigeriano Newton I. Aduaka, consegue perturbar bastante o espectador. Mais do que isso, ele nos faz espectadores impotentes diante de uma tragédia que está visível ao mundo durante anos, mas que quase todos ignoram: o flagelo do recrutamento de crianças nas guerras civis da África.

O nível de veracidade é tremendo. Não conseguimos ficar incólumes diante da tela. Chega a ser desesperador ver que tal situação ainda ocorre, mas pouco ou nada é feito para sanar isso. Aqui, é cinema denúncia em estado puro, sem simbolismos ou metáforas desnecessárias que visam apenas elogios da pseudo intelectualidade, que finge se importar com um lado mais social.




A base de "Ezra" está numa semana de interrogatório pelo qual o rapaz que dá título ao filme passa. Trata-se de uma espécie de "Comissão da Verdade", criada em Serra Leoa, em 2002, para elucidar os acontecimentos das guerras civis que assolaram a região durante a década de 90. E, Ezra está no meio disso, não para ser julgado, mas para dar um depoimento sobre o que, de fato, ocorreu.

Como tantos outros, ele foi sequestrado ainda criança, e recrutado para fazer parte de uma das facções rebeldes do lugar. Da infância à adolescência, conhece inúmeras pessoas, inclusive, a sua futura esposa. Mas, gradativamente, passa a questionar os motivos dos conflitos, até o dia em que participa de um massacre a um vilarejo, e que resulta na morte de seus próprios pais.

Uma coisa interessante é que o filme, mesmo com um alto grau de realidade e denuncismo, consegue prender a atenção com uma estória bem estruturada, e atuações muito competentes. Questionamos até se quem participou do filme não tenha, de fato, sofrido esse tipo de violência retratada na película.




O próprio personagem Ezra é fascinante. Jovem e inseguro, sente-se cada vez mais deslocado num mundo inóspito, seja na facção, seja na vida civil que passou a ter após os conflitos. O trauma que ficou é tão intenso que ele passou a tomar remédios controlados apenas para poder dormir. E, durante o interrogatório na Comissão, diz muitas coisas verdadeiramente desconcertantes:

"Por que vocês devem me julgar? Numa guerra, não tem heróis. Se querem me julgar, terão que fazer isso com todos os soldados do mundo!"

A parte técnica do filme é muito bem realizada, manipulando de forma competente a ambientação, seja no interrogatório (de maneira opressora), seja durante as investidas dos rebeldes (de maneira brutal). Prova de que o cinema no mundo tem muito a oferecer; basta tirarmos um poucos o olhar de Hollywood e suas mega produções sem conteúdo.




"Ezra" não apenas cumpre seu papel, como o amplia. Não coloca o seu personagem principal como um vilão, e tenta mostrar que somente com o conhecimento de um passado bastante doloroso podemos entender melhor o processo de certos acontecimentos atuais, evitando erros no futuro.

Numa entrevista, o diretor Newton I. Aduaka resume bem o seu filme:

"É muito fácil fazer um filme sobre a guerra, as matanças etc. O trauma psicológico que a guerra origina, porém, é pouco mencionado no cinema. A guerra é algo que marca profundamente, que afeta o plano psicológico, é uma experiência traumática que atormenta durante muito tempo. Queria ir mais além da guerra e combinar esta dimensão com a da justiça. Quem é responsável? A pessoa que dispara, a que arma ou quem a financia? Há vários níveis de responsabilidade. Mas o que mais me inquieta é o fato de que os meninos sejam considerados como os primeiros responsáveis, quando são as primeiras vítimas. Queria desenredar essa trama com o objetivo de permitir que cada um examine os diferentes níveis de responsabilidade."


NOTA: 9/10.

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