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DICA DE FILME

"Nausicaä do Vale dos Ventos" (1984)
Direção: Hayao Miyazaki.


Reconfortante ver autor e obra feitos um para o outro de forma tão harmônica. Miyazaki e os desenhos animados é o perfeito exemplo de simbiose artística. Não à toa, ele é considerado um mestre da animação. Assistir a todos os seus filmes é uma experiência única, onde sempre encontraremos uma mensagem forte, passada de forma madura e bela para o espectador.

E, eis que lhes apresento "Nausicaä do Vale dos Ventos". Inclusive, essa animação tem similaridade com outra obra do diretor: "Princesa Mononoke", que seria feito 13 anos depois. Ambas as produções pisam fundo na mensagem ecológica, mas não se prendem, nem de longe, a discursos panfletários. A questão aqui é "sentir" a natureza, respeitá-la como ser vivo, e viver em paz com ela.



Também temos, tanto em um quanto em outro, duas personagens femininas fortes (não por coincidência, duas princesas). Mas, há diferenças sutis que fazem com que cada um dos filmes se torne uma obra única dentro de sua proposta. "Mononoke" é mais direto na linguagem com a natureza e os animais. Já, em "Nausicaä" a comunicação é instintiva, através de gestos e sons, tentando compreender os sentimentos dos animais, das plantas, e por aí vai.

Mas, é bom que se diga que nenhuma das obras é melhor do que a outra. Ao contrário; as duas se completam, e demonstrando claramente a bela visão de mundo que Miyazaki possui, em especial, a que se refere à nossa relação com a natureza. "Nausicaä", por sinal, foi feito num período turbulento (ainda com a ameaça da Guerra Fria), onde o perigo de um conflito a nível mundial poderia estar em qualquer lugar.


A estória é muito bem construída. Vemos inúmeras conspirações e conflitos envolvendo alguns reinos dos humanos, onde, para eles, a guerra é a única solução viável. Entre as batalhas, está o meio ambiente, cada vez mais contaminado, e onde criaturas semelhantes a insetos gigantes não estão conseguindo mais viver em harmonia com as pessoas.

A princesa Nausicaä do Vale dos Ventos é outro grande personagem feminino de Miyazaki, o que já se transformou numa tradição sua. Ela é alegre, corajosa, íntegra, e a única que consegue se comunicar com os animais, e ter piedade deles. É muito fácil ter empatia por ela, torcer pela sua vitória, e se entristecer com a sua quase inglória luta de levar paz ao seu reino.


E, como em outras produções do diretor, aqui não esperem encontrar vilões. Não estamos falando da Disney. Portanto, a ambiguidade dos personagens permite que vejamos mais humanidade neles, e menos maniqueísmo. A fundo, o vilão que veremos aqui é o egoísmo (principalmente, dos humanos). Já a luta é pela sobrevivência, encontrando sabedoria e conhecimento no meio do caos.

Mas, as animações de Miyazaki não são irretocáveis apenas no campo das ideias, mas visualmente também. Lembrando que essa produção data de 1984, e mesmo assim, possui imagens muito bem cuidadas. Geralmente, o cineasta não se utiliza da computação gráfica em seus filmes, valendo-se do 2-D, o que dá uma movimentação interessante, e ao mesmo tempo bonita às cenas.


Com "Nausicaä", o diretor comprova muitas de suas virtudes. Consegue falar de um tema oportuno (e, atualíssimo), como a preservação do meio ambiente, mas sem deixar de abordar temas mais profundos, como a relação entre as pessoas e os animais, as guerras e os conflitos, além de sentimentos como amizade, perseverança e fé.

Definitivamente, não é bem um desenho para crianças (tem algumas partes bem sombrias). E, ao mesmo tempo, também é para os mais pequenos, pois trata de valores essenciais a qualquer sociedade mais evoluída. A mensagem nos chega de forma clara (mas, igualmente, simbólica): "Se é para lutar por um monstro, ainda mais, em decomposição, é preferível morrer". E, mais uma vez, agradecemos a Miyazaki por nos lembrar de coisas assim.



NOTA: 9,5/10.

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