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DICA DE DISCO

"Anganga" (2015)
Artistas: Juçara Marçal e Cadu Tenório.


Há discos que, ou são difíceis de classificar, ou são difíceis de ouvir, ou são difíceis de indicar. "Anganga" é tudo isso junto. Não que seja ruim; muito pelo contrário. É que suas nuances são muito intensas, e é preciso um certo cuidado, tanto para não elogiar em demasia, nem para destruir suas qualidades. Calma, muita calma nesse momento.

Claro que muito dessa estranheza de "Anganga" decorre de nosso eterno defeito de gostar de algo, e querer que esse algo se repita ad infinitum. O primeiro disco solo da Juçara, "Encarnado", foi um petardo. Visceral, contagiante e estupendamente maravilhoso. Seria lógico esperarmos para uma espécie de "continuação" desse trabalho. Felizmente, não é o que acontece.

Artistas verdadeiramente talentosos não precisam do conforto do lugar-comum. Juçara Marçal, por exemplo, poderia muito bem fazer um novo "Velho Amarelo", ou uma nova "Ciranda do Aborto", que, com certeza, seria ovacionada (de novo), e indicada a melhor do ano (de novo). Mas, ela já mostrou que não quer comodismo, mesmo que isso implique desafiar o ouvinte.



E, aqui, realmente, temos um desafio. Gravado em parceria com o também carioca Cadu Tenório, o álbum é um deleite (mas, a ser degustado com cuidado). A experimentalismo e a verve eletrônica de Cadu ajudam a dar uma textura que está longe de ser apenas algo "exótico". E o tribalismo, a ancestralidade pulsando a cada segundo.

O início do trabalho, com "Eká", é provocativo. Não temos letra. Não temos, necessariamente, um ritmo. São pouco mais de 5 minutos de barulhos sobrenaturais, misturados aos gritos de Juçara Marçal. Amedrontador, mas igualmente belo. É quase um convite para o início e um (novo) mundo, onde tudo está em construção, da linguagem ao som.

Como se percebe, o disco é extremamente sensorial. Se não sentí-lo, e entrar no clima, não adianta. Tempo perdido. Já, na segunda faixa, "Canto II", um pouco de letra, um pouco de cadência, um pouco de "normalidade", mas, que é quebrada por novos sons estranhos, inclassificáveis dentro do que se propõe a chamar de música.


A cacofonia permanece intacta (e, deslumbrante) em "Grande Anganga Muquixe". Mesmo a letra, que poderia ter um certo ritmo numa canção composta de maneira comum, aqui é "abortada" (no bom sentido) por atabaques e barulhos eletrônicos. Seus segundos finais ficam calmos como um canto gregoriano. Fenomenal.

"Canto III" inicia com a mesma estrutura da música anterior. Mas desta vez, não há tanto choque. Já estamos, a essa altura, mais ou menos acostumados à proposta do disco; e, com a devida parcimônia, apreciando o resultado. Já, "Canto VI", tem alma e carne eletrônicas, mesmo com os cantos de forte apelo afro. Contraste refinadíssimo.

O que temos em "Canto VII" é mais simples, justamente por ser algo mais orgânico, mais, digamos, audível. Vem "Taio". Sons que remetem à natureza, às forças naturais, e tudo o que habita nesse ambiente. Fechando-se os olhos, tem-se a sensação de estar no meio de uma densa floresta; perdido, mas num lugar, instintivamente, acolhedor.


E, o disco não poderia terminar de melhor maneira. A bela voz de Juçara, junto às incursões precisas de Cadu, "Candombe – Ia Cacundê Iauê" reúne praticamente todas as qualidades do álbum em quase três minutos de duração. É o ocaso. O fim. Um merecido descanso, um repouso depois da intensidade, do caos, da beleza.

O nome anganga vem do dialeto maçambicano. Significa avó materna, ou, simplesmente, é o tratamento carinhoso dado a pessoas de idade, de ambos os sexos. E, define muito bem este trabalho de Juçara Marçal e Cadu Tenório. Pois, ele acolhe o ouvinte, e o leva a lugares para sentir a pungência da vida. A arte também faz isso, mesmo que hoje ela esteja tão efêmera.

Decodificar "Anganga" não é necessário. Basta escutá-lo. Apenas isso.


NOTA: 9/10.

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