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DICA DE DISCO

"A Mulher do Fim do Mundo" (2015)
Artista: Elza Soares.



Algumas obras são um tanto complicadas de resenhar. Não porque, a priori, sejam boas ou ruins. Mas, é pelo fato de que sejam complicadas de enquadrá-las. Particularmente, nunca fui um grande fã de Elza Soares. O pouco que sabia eram alguns fatos de sua vida pessoal, e que ela foi endeusada por Adoniran Barbosa, num programa de TV, quando ainda ela era jovem. Só.

Portanto, fui ouvir este "A Mulher do Fim do Mundo" sem muita bagagem. De cara, achei o disco meio "solto", e um tanto cansativo. Então, dei mais uma chance, e o ouvi de novo. Resultado: a segunda audição, quem diria, ficou melhor, e pude vislumbrar uma obra mais completa e mais consistente.

Pra início de conversa, sim, Elza merece a alcunha de diva. Mesmo sem o alcance vocal dos tempos de outrora, ela ainda tem uma voz forte, potente, e que preenche os ambientes de forma competente. A dobradinha que abre este trabalho, "Canção do Mar / A mulher do Fim do Mundo" exemplifica bem isso. Enquanto uma mostra Elza cantando à capela, a outra nos presenteia com um som exuberante, bem tocado e envolvente.


"Me deixem cantar até o fim!"

Não diria necessariamente que se trata de um disco "temático", mas as letras têm um evidente cunho social, com um apelo que pode, muito bem, ser enquadrado como feminista. "Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim", canta em "Maria da Vila Matilde". Atitude, meus caros, algo que novos e velhos artistas precisam voltar a ter. Em frente, Elza!

Uma das coisas que mais me impressionou positivamente no álbum é a sonoridade. É samba, é rock, é tudo. Mas, com uma unidade incrível. Créditos e palmas para o produtor e baterista Guilherme Kastrup, unido a um time de respeito: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra) e Felipe Roseno (percussão), velhos conhecidos da cena independente paulista.

Outra canção que merece bastante destaque é "Pra Fuder". Embalada por um samba-enredo magnífico, possui uma provocativa mensagem. Uma ode à liberdade, nada careta. O que é até normal, dados os anos bem vividos de Elza. Já, a guitarrinha esperta de "Benedita" prepara uma música, cujo ambiente de violência urbana conhecemos bem : "Homicida, suicida, apareceu, aparecida, é maldita, é senhora, é bendita, apavora, vem armada, não rendida, faz do beco sacristia."



A atmosfera descontraída de "Firmeza", por outro lado, lembrou a mim os bons tempos do Funk Como Le Gusta. É malandragem autêntica, sem lugar para manés. Chegamos ao bolero pós-moderno de "Dança", e só nos resta contemplar uma Elza ainda dolente, que sabe cantar e interpretar. "O que me fez morrer, vai me fazer voltar."

No final, duas ótimas canções. Uma delas, "Canal", inclusive, chega a remeter ao som mais pop que a NAÇÃO zumbi adotou em "Cicatriz". Prova de que a incansável diva está sempre atrás de renovar a sua música. O disco termina com mais uma dobradinha, como iniciou: "Solto / Comigo". A primeira é um classicismo bonito, mas um tanto frouxo. A segunda, porém, é arrebatadora. Distorção, para depois, ouvirmos apenas a voz de Elza. Nada mais. Grand finale.


Não é o disco do ano, muito menos o maior clássico da cantora. Mas, com certeza, é um dos mais agradáveis e coesos de 2015 (o que já é muito). E, que Elza ainda continue sua jornada, como mulher e como ser humano, neste fim de mundo. Ela pode; ela deve.


NOTA: 8/10.

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