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Dica de Disco

"Cure for Pain" (1993)
Artista: Morphine.


O que dizer de uma banda de rock sem guitarras, onde o som delas é substituído por um sax barítono? O que dizer de um grupo cujo vocalista chegou a trabalhar como mestre de obras no Brasil, e é quem construiu seu próprio baixo, de apenas de duas cordas? O que dizer de uma banda onde esse mesmo vocalista morreu, de ataque cardíaco, em cima do palco? Pois, é, o Morphine possuía todas essas características, o que a tornava mais que peculiar, principalmente, numa década em que imperou o barulho das guitarras distorcidas do rock alternativo.

Um ser estranho até no underground, o Morphine foi construindo uma trajetória muito interessante, sempre com shows bastante intimistas, ótimos discos, que mesclavam sons que iam de The Doors a Coltrane, e, pra finalizar, uma história trágica (a referida morte de seu líder, o Mark Sandman). De uma certa forma, direta e indiretamente, tudo isso está explicitado no grande clássico deles, "Cure for Pain", segundo e mais importante trabalho da carreira deles. Aqui, conseguem, sem esforço algum, colocar alma, sentimento, carisma e criatividade num som, aparentemente, improvável.


Além do baixista Mark Sandman, e sua voz rouca, que casava bem com a proposta da banda, completam o trio o estupendo saxofonista Dana Colley e o bom baterista Billy Conway. E, somente o que esses três tiravam de seus instrumentos era algo formidável. As canções de "Cure for Pain" emanam uma aura diferente, nem rock, nem jazz, e, ao mesmo tempo, os dois juntos no que de melhor cada um tem. Desde a melodia contagiante de "Buena", passando pela triste delicadeza de "Candy", até a pesada e poderosa "Thursday", este álbum é irretocável.

Mas, fora essas, há músicas de igual quilate ao longo do disco, como "A Head With Wings" e "Mary Won't You Call My Name?", sem contar interessante interlúdios instrumentais, a exemplo de "Miles Davis' Funeral". Tudo muito redondo e fácil de se ouvir, mas, nunca simplório, pois o cuidado com cada composição por parte da banda fica nítido. Digamos que é uma forma descomplicada de fazer música, sem abdicar da qualidade, e, principalmente, da identidade. Façam o teste: hoje em dia, provavelmente, não há nenhum artista que soe como o Morphine.


Mas, infelizmente, houve o ocaso, e a banda já não existe mais. No entanto, os remanescentes dela, após a morte de Sandman, ainda continuaram com um projeto chamado "Orquestra Morphine", onde as canções da banda eram executadas com um aparato maior de músicos. Esse projeto era formado, essencialmente, por amigos do vocalista, que além de deixarem sua arte viva, ainda levantavam fundos para o Fundo de Educação Musical Mark Sandman. Atitude essa mais do que louvável, principalmente, levando-se me consideração a qualidade musical.


Itens de colecionador, o Morphine e sua obra-prima "Cure for Pain" são indispensáveis para quem quiser conhecer mais do som pra lá de variado que os anos 90 nos legou, um dos últimos momentos de real inventividade na música recente.

É pegar esse disco, e viajar, sem necessidade de volta rápida.


Nota: 9/10.

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