Pular para o conteúdo principal
Filme Não Recomendável

"Batman versus Superman: A Origem da Justiça" (2016)
Direção: Zack Snyder.



Antes de mais nada, um aviso: esta resenha contém spoilers. Aviso dado, vamos ao filme.

Muito se falou a respeito dessa produção, e que ela, para o bem e para o mal, seria o calcanhar de aquiles dos filmes hollywoodianos de super-heróis. Se desse certo, daria um senhor fôlego a um gênero que há muito tempo vem deixando a desejar. Caso não, poderia enterrar muitos projetos desse tipo no futuro. A depender, no entanto, da ânsia em fazer dinheiro dos estúdios pra esse tipo de filme, é provável que, independente do resultado nas bilheterias, muitas outras produções do tipo virão. O problema é a (falta) de qualidade delas. Como é o caso do próprio "Batman versus Superman".

Tentando não ser ranzinza, digo honestamente que os 10 primeiros minutos do filme são péssimos. Snyder tem aquela feia mania de tirar a emoção de qualquer cena, transformando-a em algo plastificado demais. A sequência de Bruce Wayne ainda criança no funeral dos pais, lembrando dos assassinato deles e caindo num fosso repleto de morcegos é estilizada, e só. Muita câmera lenta, música contemplativa ao fundo, muita narração com frases de efeito. É quase igual ao início sofrível de "Watchmen".



Depois disso, temos uma coleção de furos de roteiro inacreditáveis (tem uma cena em que pessoas mesmo vendo prédios sendo destruídos, só saem dos escritórios porque é o patrão Bruce Wayne quem autoriza (empregados bons são raros hoje em dia! hahaha). E as cenas de ação também padecem daquele efeito "ninguém nas ruas", uma cidade sendo destruída, e nenhuma alma viva correndo desesperada. Tudo culminando de forma muito forçada, aonde sobre pose e falta conteúdo. E, isso são só os 10 primeiros minutos do filme! Tem que estar resignado para prosseguir.

Só que os furos de roteiro não param por aí, e talvez seja esse um dos maiores defeitos do longa, ao lado da inabilidade do cineasta em deixar qualquer história fluir com naturalidade. Ao menos, nesse meio tempo, coisas interessantes são levantadas no roteiro, como o fato da população mundial conviver com um super ser que ainda não consegue medir as consequências de seus atos. Ao mesmo tempo que os poderes de Superman são grandiosos, promovem inúmeras tragédias por onde passa, o que faz as autoridades questionarem suas ações.



O problema é que essa premissa de um embate entre alguém com poderes quase divinos, mas, que ainda não tem um lastro moral para reconhecer o que deve ou não ser feito, e alguém amargurado, frio e calculista, é mostrada de maneira muito rasa e superficial, com clichês pipocando aqui e acolá. Fica aquela sensação de que os personagens estão dizendo uma coisa extraordinária, quando, na verdade, estão falando trivialidades. Beira o ridículo, mesmo. Falta na verdade o tal bom gosto.

A própria apresentação dos protagonistas do enredo é mal-feita. A primeira aparição do Superman, salvando Louis Lane de terroristas na África, é muito fraca e como sempre, clichê. Ao passo que a primeira vez que o Batman se mostra é mais bem trabalhada, porém, não se diferencia do clima soturno que tantos outros já fizeram antes (e, melhor). Até a tão falada chegada da Mulher-Maravilha não é tão maravilhosa assim (perdoem-me o trocadilho!).



Quesito construção de personagens? Nada de novo no front. O roteiro, esquemático como ele só, entrega aquilo que se espera de cada um. Wayne é frio e calculista, ao passo que Superman, a despeito de sua impulsividade, é bastante ingênuo. Louis é a mocinha em perigo, que, vez ou outra, corre riscos. Porém, o pior é Lex Luthor. Pareceu que os roteiristas quiseram fazer algo parecido com o Coringa de Nolan, alguém super histriônico, cheio de tiques nervosos e com planos mirabolantes. Só que, ao contrário da extraordinária versão do palhaço do crime, o que temos aqui é um vilão risível, nos mesmos moldes que o Luthor dos filmes antigos do criptoniano.

O que poderia diferenciar um pouco, seriam as cenas de ação, afinal, estamos falando de um blockbuster hollywoodiano. Porém, estamos falando também do diretor Zack Snyder, que parece que não entendeu que cinema não é HQ. Sequência cheias de pose e pompa funcionam bem no papel, em desenho, mas, num filme, são outros quinhentos. Aqui é tudo muito travado, "duro", sublimando a empolgação em detrimento de cenas que querem passar só "estilo" (saudades de Nolan...).



A maior parte do elenco também foi uma escolha infeliz. Não adianta, Ben Affleck não funciona em filmes de ação. Ele não tem expressividade ou carisma para um personagem como o Batman. Até Michael Keaton fez melhor. Já, Henry Cavill é perfeito para interpretar o Superman. Mesmo que ele seja um pouco limitado como ator, sua pouca expressividade cai bem num personagem que ainda está indeciso quanto ao seu papel no mundo. Gal Gadot faz uma Mulher-Maravilha apenas razoável. Mas, ruim mesmo é Jesse Eisenberg e seu Lex Luthor que lembram os patéticos vilões dos filmes anteriores do homem-morcego, como o Duas-Caras de Tommy Lee Jones ou o Charada de Jim Carrey. E o engraçado é que o ator se esforça bastante, é notável seu exercicio de interpretação, mas... O restante do elenco faz o que pode, mas, no geral todos estão no piloto-automático.

Pra não dizer que não falei de flores, o filme até tem algumas coisas boas. A batalha com Apocalipse é, realmente, épica, bem como o esperado confronto entre os protagonistas. E, isso, de fato, vale o ingresso, pois, a ação nessas cenas, pelo menos, é mais "real", e mesmo "orquestrada". E, há alguns debates interessantes a respeito da existência de um ser poderoso como o Superman. Tudo, claro, sem grandes profundidades, afinal, uma superprodução convencional sabe aonde pisa. Mas, não deixa de ser bom ver esses questionamentos num filme assim.



No geral, é tudo mais do mesmo. O roteiro,  um amontoado de clichês, sem ousadia. Os personagens e suas motivações mal construídos, bem como a narrativa, "quebrada" a maior parte do tempo. Sim, provavelmente o filme irá faturar milhões. Mas não, ele não será um divisor de águas do gênero. E, infelizmente, o cinema de heróis em quadrinhos continuará numa espiral de mesmice, não fazendo jus a qualidade infinitamente superior de suas respectivas HQ's. Uma pena, porém, isso era mais do que esperado.


Nota: 4/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista

10 Melhores Discos Nacionais de 2017 (Até Agora)


Sim, meus caros, não está nada fácil. Achar os "10 melhores discos nacionais lançados em 2017 (ate agora)" demandou bastante tempo, mesmo porque, até no meio do cenário indie, anda rolando uma certa mesmice em termos de sons e atitudes, com bandas soando rigorosamente iguais umas as outras. Está faltando identidade e carisma até na nossa música alternativa, infelizmente. Mas, lamentações à parte, esta é uma pequena lista que se propõe a ser um guia atual para quem deseja saber o que anda acontecendo de bom por aí. 
Torcer, agora, para que os próximos meses sejam mais produtivos no sentido de termos mais lançamentos bons como estes.
🎵


10°
"Feeexta"
Camarones Orquestra Guitarrística


"Canções Para Depois do Ódio"
Marcelo Yuka


"Triinca" Triinca

"Galanga Livre" Rincon Sapiência

"Vênus" Tupimasala
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…