Pular para o conteúdo principal
Dica de Filme

"A Colina Escarlate" (2015)
Direção: Guilhermo Del Toro.


Chega a ser muito fácil repetir lugares-comuns amplamente divulgados. Quando uma opinião categórica é dada, muitos seguem, sem, muitas vezes, questionar ou entender do assunto em questão. Quando "A Colina Escarlate" estreou, foi quase unânime que o filme era um dos piores trabalhos do diretor Guilhermo Del Toro. Convenhamos: realmente, ele não se compara a "O Labirinto do Fauno", a obra máxima do cineasta. Mas, também, está bem longe de ser algo "menor" em termos de cinema. Na realidade, trata-se de um belo filme (em todos os sentidos), com uma aura clássica que tanto faz falta nas produções de hoje.

Olhando friamente, "A Colina Escarlate", nada mais é, do que um romance (e, dos bons), com a presença de fantasmas. O que não é nenhuma novidade, em se tratando da filmografia de Del Toro, cujos monstros e fantasmas em suas produções ora são seres meramente atormentados, sendo os humanos os grandes vilões, ora simplesmente metáforas para críticas sociais. Essa prerrogativa, inclusive, é dita pela própria protagonista deste filme, que é aspirante à escritora, e escreve romances onde seres sobrenaturais não são mais do que simbologias de alguma mensagem que ela desejar passar ao leitor. Esta é a proposta da produção, o que, pelo visto, pouca gente entendeu.




De início, conhecemos a personagem principal, Edith, que se mostra independente e com uma aptidão peculiar para escrever romances. Mas, quando um misterioso homem (Sir Thomas Sharpe) e sua irmã (Lucille) chegam para fazer negócios com o seu pai, a vida da moça muda. Apaixonando-se por Thomas, e após a morte acidental de seu pai, Edith vai morar numa velha mansão com ele e sua irmã. Porém, estranhos acontecimentos sobrenaturais fazem ela desconfiar de que há algo muito errado com seu marido, segredos que, aos poucos, vão sendo revelados.

Sim, a sinopse pode parecer algo meio clichê, e é mesmo. O roteiro não esconde sua intenção de fazer uma história à moda antiga, onde vemos monstros com sentimentos, e pessoas praticados ações escabrosas. Não à toa, uma das autoras preferidas de Edith é Mary Shelley, criadora de Frankestein. Só que mesmo aparentando ser um melodrama piegas, o filme desenvolve muito bem a ação dos personagens, e o romance que vemos em tela não é excessivamente açucarado. Ao contrário, chega a ser muito bonito de se ver.




Por sinal, falando em beleza, a parte técnica do filme é impecável. Del Toro demonstra ser um dos diretores mais inventivos de sua geração, compondo ambientes e climas que mais parecem personagens à parte. A velha mansão de Sharpe, por exemplo, parece ter vida própria, e a perspectiva da câmera permite que ele preencha a tela por completo. Um deleite visual. Em se tratando dos famosos monstros de Del Toro, eles estão aqui, em menos profusão que em filmes anteriores, mas, muito bem feitos (e aterrorizantes).

No campo das atuações, Mia Wasikowska faz até uma Edith competente, mas, nada de extraordinário. Os destaques mesmo vão para Tom Hiddelstom, como Thomas, e Jessica Chainstain, como Lucille. As interpretações dos dois são na medida certa, onde, às vezes, um simples olhar já denota toda a emoção pela qual estão passando. Por fim, a direção de Del Toro torna tudo muito agradável de se assistir. Quase duas horas que passam rápido, com um bom ritmo, apesar da história sem contadas nos nuances, nos detalhes, muitas vezes.





O que temos aqui, portanto, não é um filme de terror como é vendido. Na realidade, em determinados momentos, chega a ser tão triste quanto "O Labirinto do Fauno". E, é aí que está o deferencial na obra do diretor. O maior medo não está em seres do outro mundo, e sim, nos nossos próprios sentimentos, que, às vezes, nutridos de tanto ódio, chegam a ser dignos de piedade. Já deveríamos estar acostumados com o cinema peculiar de Del Toro. Mas, pra quem ainda tinha dúvidas, "A Colina Escarlate" deixa tudo mais às claras. E, por isso mesmo, não deixa de ótimo.


Nota: 8,5/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…