Pular para o conteúdo principal
Dica de Filme

"A Vida de Brian" (1979)
Direção: Terry Jones.


Fazer rir com categoria é uma arte complicada, principalmente, em tempos aonde o mau gosto rende gargalhadas fáceis. Sob a desculpa do "politicamente incorreto", o humor de hoje, geralmente, é recheado de baixaria, que constrange mais do que faz uma graça genuína. Nesse sentido, tirando alguns dos melhores momentos de Woody Allen, talvez, os últimos grandes filmes de comédia tenham sido realizados pelo grupo inglês Monty Python. Isso porque a trupe não apenas encarnava aquele humor mais físico, mais performático, como também tinha ótimas críticas e provocações em suas anedotas. "A Vida de Brian" é o que, provavelmente, reúne o melhor dos dois mundos.

Indo do nonsense ao besteirol, passando por belas "alfinetas" em toda a sociedade, o filme não poupa ninguém. Mas, ninguém, mesmo! A história, relativamente simples, ao contar uma reinterpretação da Bíblia, tendo como protagonista o desafortunado Brian, confundido com o Messias, vai desenvolvendo muitas críticas, ao mesmo tempo que faz rir (e, muito). Longo nos minutos iniciais, assistimos a uma engraçadíssima paródia com a chegada dos Reis Magos, e sua confusão, em entregarem seus presentes ao filho de Deus "errado". Após isso, vamos acompanhando as desventuras de Brian, que, vivendo com uma mãe controladora, envolve-se em diversas estripulias, incluindo sua participação num grupo "terrorista" que luta contra os romanos.




Tudo no roteiro, claro, é uma bela desculpa para os malucões do Monty Python despejarem suas gags e destilarem seu veneno (principalmente, contra a religião). Em determinado momento, Brian, confundido com o Messias, diz a um povo atento que não precisam seguir ninguém, e que pensem por conta própria. Hilário e desconcertante, até mesmo se formos fazer um paralelo com muitos "pregadores" religiosos de hoje em dia. Também são interessantes os diálogos entre os membros do grupo revolucionário que planejam atacar os romanos, sempre discordando das coisas mais ridículas, e mais preocupados com os protocolos e as regras do que da ação em si (a arte imitando a vida?).

O roteiro esperto ainda abre espaço para diversas referências e "homenagens", sejam aos musicais, sejam às ficções científicas. Tudo, incrivelmente, "condizente" com a história absurda. Além disso, temos uma gama enorme de personagens secundários que roubam a cena. Como na gargalhar com um Pôncio Pilatos, e sua dificuldade de dicção? Ou então com o líder dos revoltosos, que quando está acudo é o mais covarde de todos? Ah, e ainda temos um senhor que é prisioneiro dos romanos, e que acha a crucificação uma "benção", coisa de gente sortuda.




Interessante notar que mesmo com um enredo que brinca o tempo todo com a religião (em especial, a cristã), o filme não se rende à agressões gratuitas e sem sentido. Ao contrário: apenas coloca o dedo na ferida da hipocrisia que sempre imperou na Igreja, e que, nos dias atuais, ainda é latente. Até mesmo os cristãos menos ortodoxos e mais de bem com a vida acharão graça nas situações mostradas aqui, inclusive, na sequência final, que mostra um alegre coro de crucificados! "Veja sempre o lado bom vida" virou, fácil, fácil, um clássico cult ao longo dos anos.

O único problema de "A Vida de Brian" é que algumas piadas, mesmo muito boas, alongam-se demais. Você até acha graça e ri muito no início, mas, depois, a catarse passa, e a cena continua, esvaziando um pouco o efeito anterior. Não se trata de um defeito recorrente, e sim, pontual, mas, tivessem evitado isso, o filme seria perfeito do começo até o final. Mesmo assim, o humor dos principais momentos prevalece, e o que fica é sensação de uma comédia inteligente e anarquista como poucas.





Não é exagero dizer que não se fazem mais comédias assim. Uma rápida passada nas produções recentes do gênero comprovará isso, com filmes que fazem de tudo, menos rir. E, não se trata de ser "moralista" ou "politicamente correto" (afinal, a trupe do Monty Python sempre foi bastante subversiva), mas, é de bom gosto. mesmo. Enquanto, a maioria das piadas de hoje são feitas da "cintura pra baixo", esse bando de doidos que realizaram "A Vida de Brian" eram comediantes com cérebro, e que respeitavam a inteligência de seus espectadores, custe o que custasse. De fato, não se faz mais humor assim.


Nota: 9/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…