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Dica de Filme

"A Montanha dos Sete Abutres" (1951)
Direção: Billy Wilder


Até que ponto a arte imita a vida? Essa questão é mais antiga do que se parece, e se, ainda hoje, a sociedade se depara com certos dilemas, é porque a arte sabe, como poucas coisas, canalizar os nossos problemas em histórias atemporais, só mudando data e local, mas, retratando, muitas vezes, o que temos de pior. Chegamos ao filme "A Montanha dos Sete Abutres", e a pergunta acima muda para: "O jornalista tem ética?" Se, 65 anos depois, uma produção pra cinema possui tantos ecos com a nossa realidade, é porque, de fato, algo está errado.

Corajosamente, Billy Wilder (que também acumulou a função de co-roteirista aqui), retira de seu protagonista (Chuck Tatum) qualquer pudor, escrúpulo ou decência. E, mesmo assim, não deixa de ser alguém que desperta um certo fascínio. Charmoso, carismático e extremamente retórico, Tatum, logo no início do filme, mostra toda a sua arrogância ao chegar para pedir emprego num pequeno jornal da cidade, quase "intimando" o dono do periódico a contratá-lo. Não à toa, uma placa pendurada na parede da redação desse jornal lhe chama a atenção, e vai ser a tônica contrária do que Tatum vai fazer ao longo de toda a história: "Fale sempre a verdade".




Com o passar do tempo, no entanto, ele se sente improdutivo, pois, praticamente nada anda acontecendo; numa grande notícia, nenhum fato, verdadeiramente, inusitado; absolutamente nada. Depois de meses sem nenhuma novidade, viaja com um jovem aprendiz para fazer uma simples matéria. É então que se deparam com algo: um caçador de tesouros ficou preso numa mina, e agora, precisa de socorro. Tatum, automaticamente, sente o faro de uma boa história, e se intromete na bem situação. Primeiro, é ele quem se prontifica em ir ver se o homem está bem, para, aos poucos, ir tomando conta da situação, apropriando-se da história, e usando essa tragédia para se promover.

As artimanhas de Tatum para se promover em cima do caso são inúmeras, e vão desde aconselhar como a esposa do homem que está soterrado deve se comportar diante da sociedade, até usar um xerife local para ter acesso exclusivo ao local da tragédia, em troca de ajudá-lo a se reeleger. Com o passar do tempo, a pequena cidade se torna um campo de peregrinação de pessoas vindas de diversas partes. A tragédia do pobre diabo preso numa gruta vira, da noite pro dia, uma mera atração turística, com direito a parque de diversões, canções compostas de cantores locais, e tudo mais que se possa imaginar. E, por trás, a mídia controlando as emoções dos que estão ali, pelas mãos de Tatum, que consegue triplicar as vendas do jornal de onde trabalha.




Só que o roteiro não se contenta em apenas expôr a sordidez de se lucrar, direta e indiretamente, com tragédias pessoais. Mostra, de forma muito chocante, como alguns (incluindo o próprio Tatum) façam de tudo para que o homem fique o máximo de tempo possível soterrado. Quanto mais tempo a tragédia durar, mais os lucros virão, e, no final, o que menos importa é salvar o homem que, há dias, encontra-se debaixo da terra, cada vez mais fraco e doente. Os únicos personagens que demostram ter algum caráter são os sogros do homem soterrado. Mas, estes nada podem contra a ganância de quem precisa que ele continue preso, numa relação mórbida e bastante cruel que quem, aparentemente, quer ajudar.

Diversos fatores ajudam o filme a ser uma obra tão relevante, necessária e, ainda assim, ser uma aula do mais puro cinema. A produção (também a cargo do diretor Billy Wilder) é brilhante. As sequências dentro da gruta ou as tomadas panorâmicas da peregrinação são de um realismo impressionante para a época, algo beirando o estilo documental. O roteiro também se mostra muito bem estruturado, não perdendo tempo com situações desnecessárias, deixando a história correr o seu curso, e envolvendo bem o espectador, que, facilmente, sente ansiedade em saber como tudo vai acabar. Isso se chama domínio narrativo (algo bastante em falta hoje em dia).




Os personagens, mesmo sendo tão inescrupulosos e canalhas em geral, são muito bem escritos, cujas ações são, sim, moralmente inaceitáveis, mas, não inverossímeis a ponto de não acreditarmos que alguém seria capaz de fazê-las. Ao contrário: facilmente, encontraremos a falta de ética e de humanidade da maioria dos personagens nos dias atuais, e nos questionaremos, o tempo todo, se o que estamos assistindo é, de fato, um filme de ficção ou não. E, tudo isso não seria possível sem um elenco, verdadeiramente, de peso. Pra começar, um Kirk Douglas no auge, com uma dose certeira de cinismo e charme, fazendo de seu Chuck Tatum um homem detestável, mas, desgraçadamente humano. Temos também uma Jan Sterling interpretando de forma primorosa Lorraine, a esposa do homem que está soterrado, e que vislumbra a oportunidade de ir embora da cidade. E, claro, Richard Benedict, que faz, de maneira muito sofrida, Leo Minosa, a única e incontestável vítima de toda a história.

E, no final, o que temos é um baita filme, que dialoga sobre várias questões importantes, sendo mordaz e inteligente na medida certa. O abutre, pra quem sabe, é aquele animal que cerca a sua vítima, esperando que ela morra para poder se alimentar. Metaforicamente, o que mais encontraremos (em especial, na mídia) são abutres, sedentos tragédias, desgraças e sangue. Se um filme, passado mais de meio século após ser feito, ainda consegue ser tão urgente para falarmos sobre isso, é porque a arte, como quase sempre ocorre, está certa, e a sociedade, como quase sempre ocorre, está vergonhosamente errada. Torçamos, portanto, para que, um dia, "A Montanha dos Sete Abutres", a despeito de sua genialidade, seja uma obra datada.


Nota: 10/10

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