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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Até o Último Homem" (2016)
Direção: Mel Gibson


Música épica ao fundo, soldados voando e fazendo malabarismos após violentes explosões e bastante câmera lenta. Pois, é. Estamos diante de mais um típico filme de guerra estadunidense que faz toda a sorte de exageros para arrancar emoção do público. Às vezes, dá certo, como em "Platoon". Já, em outras... O que Hollywood ainda não entendeu é que uma produção desse gênero não precisa carregar tanto nas tinas das cenas para conseguir empatia do público. Basta que narre os fatos de maneira precisa. Quando tiver que ser brutal, seja. Ou quando tiver que ser dramático, idem. Pouco ou nada se sente, mesmo, do horror real que é uma guerra.

O pior é que o senhor Mel Gibson até que tinha uma interessante história em mãos. Baseado em eventos reais, o filme narra a peculiar história de Desmond Doss, que, devido aos seus preceitos religiosos se recusou a pagar em armas quando lutou na Segunda Guerra Mundial, conseguindo ajudar na categoria de médico. Após a breve (e, desnecessária) introdução estilosa citada acima, vemos mais sequência milimetricamente feitas para causar simpatia no público, com Doss e seu irmão brincando, ao mesmo tempo que conhecemos o pai deles, que lutou na Primeira Guerra, e hoje, é um homem "destruído". O problema é que nenhuma dessas partes soa natural.




Já nesses primeiros minutos, percebemos que um dos focos que vai permear todo o filme é o da religião. Nascido e criado sob os hostes do Cristianismo, Doss segue à risca os seus princípios,principalmente, o que se refere ao mandamento de "Não Matarás". O problema é que as incursões religiosas ao longo da trama soam forçadas, e um tanto caricatas, como se a intenção não fosse mostrar somente a moral que Doss segue, e sim, fazer uma propaganda da religião dele (não por acaso, Gibson é cristão). Em determinados momentos, "Até o Último Homem" não perderia em nada para "Deus Não Está Morto" nesse sentido.

Mas, ok, vamos abstrair essa questão, e tentar ver se o filme funciona como cinema. Bem, em algumas partes, sim, e em muitas outras, não. Quando apela para clichês do gênero, a produção perde, e muito, o interesse. Há, inclusive, um sargento linha-dura, que é apresentado, exatamente, da mesma maneira que o odioso sargento Hartman, de "Nascido para Matar" (um irritante recurso utilizado pelos filmes de guerra desde então). Mas, quando tenta narrar os eventos de maneira espontânea, "Até o Último Homem" empolga, como quando Doss decide, ainda no recrutamento, não pegar em armas, e passa a ser perseguido por seus companheiros e superiores, chegando até a ser julgado num tribunal militar. Só a partir daí começamos a torcer de verdade pelo personagem.




Há alguns destaques que não poderiam decepcionar nesse tipo de superprodução, como a parte técnica, por exemplo. De fato, temos aqui cenas muitos impactantes, em especial, as duas principais batalhas, ocorridas no "meio" do filme, e que são tão violentas e chocantes quanto aqueles início fenomenal de "O Resgate do Soldado Ryan". Curiosamente, essas sequências são mais diretas e objetivas, mostrando de maneira crua o que a guerra pode fazer. O problema é que essas cenas se alongam demais, e cria aquele incômodo de estarmos numa linha tênue entre a exposição dos fatos e o puro voyerismo da violência pela violência. 

Os sub-textos que acompanham o roteiro principal também são outro incômodo, principalmente, para quem tem uma visão mais crítica e realista das guerras. Como de costume, os "inimigos" (no caso, os japoneses) são tratados da pior forma possível, como "animais fedorentos" e que "não querem saber se vão viver ou morrer". O próprio Doss fala, num determinado instante, que só se alistou porque "tomou Pearl Harbor como algo pessoal". Essa forma unilateral e maniqueísta de ver as coisas já se tornou obsoleto há tempos, afinal, até mesmo o ultraconservador Clint Eastwood já demonstrou maturidade ao fazer dois filmes sobre a Segunda Guerra bastante conscientes num mesmo ano (um, com a visão dos norte-americanos e outros com a visão dos japoneses). Não cabe mais fingir que os norte-americanos foram os grandes heróis, enquanto os outros eram os vilões implacáveis e sanguinários.




As atuações, em geral, estão no piloto automático, como no caso de Andrew Garfield (que faz Desmonda Doss) e Vince Vaughn (intérprete do Sargento Howell). O único que está um pouco acima da média é Hugo Weaving (numa tocante e sincera caracterização de  Tom Doss, o pai de Desmond). A direção do já veterano Mel Gibson é boa em alguns momentos, e arrastada em outros. Na verdade, o filme não precisaria ter mais de duas horas de duração, pois temos muita ocupação de espaço com a "mensagem" que Mel Gibson quer passar, e isso, em certas ocasiões, trava a história. E, o roteiro, claro, enfeita algumas passagens para tornar a coisa mais cinematográfica possível, só que algumas situações acabam ficando inverossímeis.

O que sobra? Um típico filme de guerra, daqueles que a Academia do Oscar adora indicar todos os anos. "Até o Último Homem" não chega a ser um desastre total (ele é bem melhor do que "Falcão Negro em Perigo" ou "Pearl Harbor", por exemplo). Mas, é tanta forçação de narra, tanto clichê por minuto que, para quem já assistiu a uma quantidade considerável de produções do gênero, com certeza, vai sair decepcionado. No final das contas, acabou parecendo que o filme não quis fazer uma ode contra a guerra e sim uma pregação da religião do personagem principal, que, de certo, e pela sua incrível história de vida, merecia uma cinebiografia menos esquemática.


Nota: 5/10


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