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Dica de Filme

"Logan" (2017)
Direção: James Mangold


DESPEDIDA DIGNA DE UM HERÓI

"Há 25 anos que não nasce um mutante sequer no mundo, Charles. Você sempre disse que nós fazíamos parte de um plano de Deus. Mas, na verdade, fomos uma falha Dele".

Essas palavras de Logan numa conversa com Xavier talvez resuma bem o clima deste que promete ser o último filme do ator Hugh Jackman como o personagem Wolverine. Sim, meus caros, não esperem encontrar aqui um filme de supre-herói padrão, desses com gente fantasiada, piadinhas a rodo e efeitos especiais mirabolantes. Aqui, o buraco é mais embaixo, e estamos falando mais de um drama do que de uma aventura. Pra ser mais honesto ainda, um drama sobre a velhice e sobre o cansaço das lutas cotidianas. Lutas, essas, que não se resumem a confrontos com gênios do mal, ou coisas do tipo. A batalha pode ser, por exemplo, como uma doença degenerativa, que pode acometer qualquer um, até a mente mais poderosa do mundo.




A sequência inicial já denota esse tom mais sombrio, com Logan massacrando assaltantes de carro totalmente bêbado, pra, em seguida, ele ser mostrado retirando as balas de seu corpo. E, a câmera faz questão de mostrar alguém não somente exausto, mas, com uma espécie de cansaço mais profundo. E, o desenrolar dos acontecimentos nos deixam ainda mais chocados. Se, num primeiro instante, vemos um Logan totalmente abatido física e mentalmente, logo depois vemos o tão poderoso Charles Xavier reduzido a um senhor senil, que não fala coisa com coisa, necessitando sempre de muitos remédios e precisando dos outros para suas necessidades mais básicas, como ir ao banheiro. Pois é; a vida real não é uma história em quadrinhos.

Mantendo Charles recluso num lugar escondido no Novo México, Logan aceita qualquer tipo de serviço para juntar dinheiro e poder levar Xavier para um lugar mais seguro. É, então, que uma misteriosa mulher e sua filha aparecem na vida dele. E, também aparecem os famigerados Carniceiros, um grupo de mercenários que está atrás da tal mulher e de sua filha. O bom é que, diante dessas situações, o velho Logan é mostrado como sempre foi: um sujeito duro, arredio e, às vezes, muito egoísta. O próprio Xavier e Caliban (outro mutante que mora com eles) é que são seus lastros morais, tentando mostrar a ele algo além da vida de desolação em que o outrora Wolverine vive atualmente. Os momentos em que esse núcleo de personagens conversa são os mais interessantes do filme, com questionamentos poucos usuais nesse tipo de produção, dando uma sensação estranha de desconforto e melancolia.




Mesmo quando a menina (filha da mulher que pediu a ajuda de Logan) se revela uma mutante também, o filme não perde essa qualidade. Claro, poderia ter evitado o velho clichê dos criminosos indo pegá-la e ela acaba com todos de forma impressionante, mas, apesar disso, o tom que impera mesmo é o da reflexão. Logan, ao mesmo tempo que precisa lidar com o seus estado de saúde (agora) muito frágil, também se vê obrigado a cuidar da segurança de um idoso e de uma criança. o Bom roteiro de Michael Green e David James Kelly ainda aproveita pra ver algumas metalinguagens, quando Logan pega umas revistas dos X-Men que a menina tinha e fala: "Na vida real, pessoas morrem de verdade, e nenhum babaca com collant pode resolver isso."

Mas, se a grande qualidade do filme é fazer essa imersão nos questionamentos de um herói em fim de carreira, completamente depressivo e sem esperança, a produção também erra feio em alguns pontos bem desconfortáveis. O primeiro deles reside nos vilões. Os Carniceiros parecem uma versão menos insana (e, por consequência, mais chata) do que os bandidos de "Mad Max". Na  realidade, temos aqui os típicos vilões burros e caricatos, que, no final das contas, só servem para serem mortos pelo herói. Para um grupo, por sinal, que trabalha numa organização cientifica tão poderosa, eles cometem falhas risíveis, não sendo, pois, antagonistas à altura de uma história principal tão boa quanto é o enredo envolvendo Logan, Xavier e a menina. Chega ao cúmulo de termos um clone do protagonista, que, mesmo sendo responsável por dois momentos decisivos na trama, poderia ser facilmente descartado do roteiro.




Mesmo com essas falhas, o longa tem uma qualidade e uma profundidade temática rara nesse tipo de produção. A relação do protagonista com seu tutor é cativante, e mesmo que ambos se tratam com rispidez às vezes, fica claro que os dois tem um grande afeto um pelo outro, como o de pai e filho. Os instantes conturbados que envolvem Logan e a menina também são muito bem explorados, principalmente, na segunda parte do filme, apesar de ser nessa mesma parte, que o longa perca um pouco o ritmo, e se torne um tanto repetitivo, Há também o fator violência que está mais presente aqui do que em todos os filmes da Marvel juntos. Troque-se os uniformes coloridos, e coloque no lugar o que acontece quando um mutante com garras ataca seus inimigos. Já dá pra perceber o estrago. Mesmo assim, o sangue, apesar de ser uma grande escala, não é gratuito, não havendo, portanto, um certo fetiche pela violência em si.

E, quanto ao ator Hugh Jackman em sua última encanação como Wolverine. Bem, podemos dizer que há uma visível entrega dele em cada cena, em cada fala, em cada gesto. Jackman já provou em filmes anteriores ser um ótimo ator, então, não há surpresas nesse quesito. E, ele prova que vai ser difícil (muito difícil) alguém fazer uma representação de Logan tão boa quanto ele. Só que, ao lado do protagonista, temos Patrick Stewart, que entrega um Professor Xavier totalmente diferente do que já se viu no cinema, aonde o seu grande poder é sublimado pela velhice e pela proximidade da morte. Uma presença em cena marcante, sem dúvida. E, obviamente, palmas para a pequena Dafne Keen, que, como a mutante X-23, passa a maior parte do tempo calada, mas, encorna o personagem com profissionalismo de gente grande. Às vezes, não é preciso mais que um olhar dela para sentirmos medo ou piedade da personagem.


Apesar de tantas qualidades, "Logan" perdeu a chance de ser o "Cavaleiros das Trevas da Marvel", como alguns andaram dizendo por aí. A culpa? Dos roteiristas, que introduziram vilões desnecessários à saga do herói, e do diretor, que, claramente, perde o fôlego na segunda metade do filme, mesmo essa sendo a parte mais interessante no relacionamento entre Logan e a X-23. Tudo bem que se trata de um blockbuster, de um personagem bastante conhecido dos quadrinhos, etc, etc, etc. Mas, antes a produção tivesse ousado mais, e descartasse os antagonistas, e algumas cenas de ação, e tivesse se focado, 100% do tempo, na busca pela redenção de Logan (que é, a bem da verdade, a única coisa importante do filme). No entanto, ironicamente, é a melhor produção baseada em quadrinhos desde "Batman: O Cavaleiro das Trevas", superando com folga, os badalados "Vingadores", "Capitão América: O Soldado Invernal" e "Guardiões da Galáxia". Infelizmente, ele não é tudo o que poderia ter sido. Ainda assim, é bastante válido assistí-lo, seja você fã de super-heróis ou não.


Nota: 8,5/10


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