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Dica de Filme

"O Que Está por Vir"
2016
Direção: Mia Hansen-Løve


FILME EXPLORA DE MANEIRA MUITO INTERESSANTE OS MUITOS CONFLITOS IDEOLÓGICOS DA ATUALIDADE, SEM SE PRENDER À OBVIEDADE

Vivemos uma bipolaridade muito forte nos dias atuais. Fato. Direita e Esquerda, progressistas e reacionários, quase sempre, não se entendem, e o que temos, na verdade, é uma luta de egos onde ninguém parece estar ganhando. E, essa é uma das linhas narrativas de "O Que Está por Vir", que aborda de maneira muito sóbria essas disputas ideológicas contemporâneas, mais especificamente no âmbito universitário, entre pessoas de diversas idades. Há, de certa forma, um panfletarismo aqui, sim, mas, no sentido de dar liberdade ao espectador para pensar por si, mesmo mexendo com duas ideologias tão conflituosas e fortes, principalmente, dentro de uma nação como a francesa, que tem isso bem enraizado em sua cultura. Se fosse só por isso, o filme já mereceria aplausos. Felizmente, porém, ele oferece bem mais.




De início, conhecemos Nathalie, uma professora universitária de filosofia, que não demora muito para conhecemos o que pensa e como gere a sua vida. Numa sequência rápida, mas, significativa, ela está chegando na faculdade onde dá aula, e, imediatamente, é barrada por um grupo de estudantes que está fazendo um protesto na porta da instituição. Em seguida, já na sala de aula, alguns alunos perguntam a Nathalie o que ela acha dos protestos, e ela se limita a dizer que ali não é lugar de se debater política. Pouco tempo depois, vemos sua relação com a família, em especial, com uma mãe doente, que sempre requer cuidados, e um marido que sempre se mostra frio, mesmo que aparentemente respeitoso com ela. Uma relação familiar, portanto, não muito diferente da maioria, no que Nathalie lida de maneira firme e um tanto reacionária.

Mas, essa vida, com uma linearidade quase científica, muda de ares (ou, pelo menos, parece mudar) quando alguns acontecimentos inesperados acontecem na vida da protagonista. São acontecimentos corriqueiros, é verdade, mas, que produzem um efeito bem catártico em Nathalie, que passa, pela primeira vez na vida (segundo ela) e sentir uma autêntica liberdade. É quando decide passar algum tempo lado de uma comunidade "alternativa", cujo membro principal é um dos seus ex-alunos, e que, ironicamente, é um militante ativo nas causas sociais, ao contrário dela. Mesmo assim, ambos se dão relativamente bem, apesar dos inevitáveis conflitos de ideias que, sutilmente, vão aparecer, e farão com que Nathalie repense ainda mais seu atual modo de vida. No entanto, ela estaria pronta para uma grande mudança nesse ponto da sua vida, ou ela irá escolher continuar seguindo a vida no mesmo rumo de antes, mesmo após tantos acontecimentos inesperados que ele sofreu?




O ótimo roteiro, escrito pela própria Mia Hansen-Løve, sabe captar muito bem alguns anseios e angústias do cidadão pós-moderno, seja ele um jovem que está naquele ímpeto revolucionário de mudar o mundo, seja ele uma pessoa de meia idade, que já passou por desilusões, e, mesmo com vasto conhecimento, recusa-se renovar seus valores. É nesse choque ideológico que o filme cresce em sua temática, não se prendendo a apenas um lado da disputa, mostrando que ambos têm as suas qualidades, ao mesmo tempo que possuem também muitas falhas. Na maioria das vezes, as mesmas falhas. Chega a ser um pouco constrangedor ver no filme o reflexo de uma realidade composta por militantes e não-militantes que só fazem dialogar de maneira rebuscada, sem nenhuma ação prática. E, é nesse ponto que a personagem da professora Nathalie terá que escolher entre se renovar ou não.

A quem possa enxergar um certo pessimismo no decorrer do filme, como se nenhum ativismo pudesse surtir efeito, mostrando que o militante de hoje será, inevitavelmente, o retrógrado de amanhã. Não é bem assim. O cerne de "O Que Está por Vir" reside na auto-crítica, provocando que, por vezes, é necessário uma mudança de postura, seja na sua vida pessoal, seja na sua vida social. A partir do momento em que ocorrem drásticas mudanças para Nathalie, ela se sente mais livre para escolher que caminho seguir, mesmo que os caminhos disponíveis sejam limitados a continuar do jeito que está, ou se entregar a novas experiências. No entanto, neste momento, ela se encontra livre, e só a ela cabe como tomar essa decisão. O bom é que, na história, tal conflito é bem dosado, e nunca se rende ao caminho mais óbvio, mais fácil, o que deixa a narrativa com um tom, de certa forma, triste, mas, com os dois pés fincados na realidade. 




As atuações, em geral, estão boas, mas, quem rouba a cena é, pra variar, Isabelle Huppert, que, no mesmo ano, teve duas performances memoráveis: esta aqui, e a do ótimo "Elle", de Paul Verhoeven. Sua persona um tanto arredia, e, às vezes, até antipática casa bem com a personagem da professora Nathalie, principalmente pelo fato de que, em alguns momentos, sentimos muita simpatia por ela (principalmente, quando ela sofre com as constantes crises da mãe), provando que, por baixo daquela carapuça forte, tem também um ser humano que tem seus sofrimentos e angústias como qualquer um. Belíssimo trabalho da atriz francesa. Mia Hansen-Løve, como cineasta, dá um passo à frente em sua carreira, e mostra que os bons filmes anteriores dela não forma mero "fogo de palha", já que, aqui, ela demonstra maturidade de veterana, tanto no roteiro, como na direção.

"O Que Está por Vir" usa muito bem a vida particular de uma pessoa (não à toda, uma professora que vive ativamente os anos 60 na França) para falar de assuntos mais abrangentes, e que ainda continuam pertinentes. Ao mesmo tempo, não abandona o lado humano da história, mostrando que bastam alguns acontecimentos para que alguém possa parar e repensar a sua vida. Interessante panorama não só da sociedade francesa atual, mas também de muitas outras nações onde as disputas ideológicas estão cada vez mais acirradas, o filme, apesar de não "escolher panfletar" a favor de um dos lados, mostra-se com uma maturidade necessária nesses tempos onde o radicalismo é a mola motriz de qualquer diálogo. Uma provocação das melhores.


Nota: 8,5/10


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