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Dica de Filme

"A Garota Desconhecida"
2016
Direção: Luc Dardenne e Jean-Pierre Dardenne


MAIS UM PEQUENO GRANDE FILME DOS IRMÃOS DARDENNE PARA APRENDERMOS UM POUCO DO SIGNIFICADO DA PALAVRA ÉTICA

Em tempos difíceis, fazer uma obra com VALORES é quase um ato subversivo. Não que para os cineastas Luc Dardenne e Jean-Pierre Dardenne isso seja alguma novidade. Lá em meados dos anos 70 e 80, quando faziam mais documentários e curtas e média-metragens, e, principalmente, a partir dos anos 90, quando a carreira deles engrenou de vez com o ótimo "A Promessa", que as produções dos irmãos Dardenne são "impregnadas" de uma ética muito clara, mas, ao mesmo tempo, de uma moral que parece cada vez mais deslocada em comparação com o seu tempo, aonde o individualismo e a falta de empatia estão bastante comuns. Em "A Garota Desconhecida", mais novo filme da dupla, eles se colocam, novamente, na árdua tarefa de fazerem um filme ÉTICO numa época em que tal palavra é quase uma afronta. E, não só conseguem passar a mensagem que eles querem com louvor, como também realizam um cinema dos bons.




Em "A Garota Desconhecida", esses valores estão concentrados na sua personagem principal, Jenny. Ela é uma dedicada médica, que, no momento, está ocupando a vaga de um veterano profissional da área. Desde o começo, vemos o quanto ela se preocupa com os seus pacientes, mesmo que isso signifique aparentar uma certa "frieza" nas atitudes. Com o passar do tempo, porém, vamos percebendo que essa "frieza", na realidade, é a melhor alternativa para cuidar das pessoas que a procuram, sempre com calma e paciência. O seu oposto é Julien, estagiário que ajuda Jenny na clínica, mas, que quase sempre acaba se envolvendo emocionalmente além da conta com os problemas dos pacientes, chegando ao ponto de atrapalhar o trabalho de Jenny. Enquanto esta lhe dá uma lição de moral sobre o seu comportamento, alguém toca a campainha da clínica, mas, Jenny ignora completamente, sob a justificativa de que já passou do horário de atendimento. No dia seguinte, descobre que quem tentou entrar na clínica foi uma jovem que, posteriormente, foi encontrada morta próxima do local. Abalada com o ocorrido e se sentindo, de alguma maneira, culpada, Jenny tenta ao menos descobrir o nome da garota, e, paralelo, ao trabalho da polícia, resolve procurar pistas de quem ela era.

Assim como no filme anterior dos irmãos Dardenne ("Dois Dias, Uma Noite"), aqui, a personagem principal parte para uma jornada particular, e o que encontrará pela frente é apenas indiferença. Jenny tenta descobrir a identidade da garota, através de uma foto dela em seu celular, e o que mais ouve é: "Nunca a vi antes". E, isso tem uma carga de crítica social muito forte, pois, a menina encontrada morta era negra, e, provavelmente, imigrante. O "nunca a vi antes" pode muito bem simbolizar o grau de invisibilidade ao qual os marginalizados estão sujeitos, jogados à própria sorte, aonde ninguém, de fato, os "vê". Nesse sentido, Jenny é vista aos olhos de terceiros, quase como uma pessoal anormal. Mas, o sentimento de culpa por não ter aberto a porta da clínica para a garota a atormenta, e ela tem certeza de que precisa, ao menos, saber o nome dela, e avisar aos seus familiares do ocorrido. Nesse meio tempo, outro sentimento de culpa recai sobre ela, que é quando Julien decide desistir da medicina, justamente após a repreensão que levou de Jenny de que ele precisava se envolver menos com os pacientes se quisesse, de fato, ajudá-los. 




O roteiro é tão meticuloso e tão engenhosamente escrito, que várias nuances são apresentadas ao longo do filme, sem que nenhuma "atropelar" a outra. Por exemplo: ao mesmo tempo em que Jenny busca por pistas sobre a identidade da garota, ela também é mostrada fazendo atendimentos à domicílio, e, são nesses momentos, ainda mais intimistas, que vamos conhecendo mais sobre a personagem, e constatamos a sua incrível dedicação aos pacientes, mas, sempre de maneira calma, serena, tranquila. Mesmo abalada com a morte da garota, e se sentindo, de alguma maneira, responsável por isso, ela caminha em busca da identidade dela também de forma tranquila, às vezes, arriscando-se um pouco demais, mas, na maioria do tempo, agindo de forma correta e sensata. É muito provável que qualquer outro filme de quaisquer outros realizadores mostraria Jenny cometendo as ações mais absurdas possíveis, só para gerar "tensão" na trama, ou, simplesmente, cenas de alívio cômico despropositais. E, isto é importante frisar, pois, muitas sinopses por aí de "A Garota Desconhecida" tratam o filme como sendo de "mistério" ou "policial", quando, na verdade, a produção está mais para um drama social bastante reflexivo.

Alguns, erroneamente, reclamaram que quando o roteiro deixa de se focar no caso da garota morta, e passa a mostrar outros temas envolvendo outros personagens, o filme se perde. Mais longe da verdade, impossível. Isso porque, quando a história se concentra especialmente nos atendimentos domiciliares de Jenny e em sua insistência para que Julien retorne ao ramo da medicina, tais momentos servem não somente para encorajar Jenny em sua jornada (visto que, nesses atendimentos, alguma pista importante pode surgir), como também servem para nos mostrar o caráter da protagonista de maneira ainda mais envolvente e interessante. É tipo: você pensa que a cena é "inútil" à trama num primeiro momento, mas, com um pouco mais de cuidado ao olhar os detalhes, irá perceber que ela, de algum jeito, tem papel importante para a história. O que talvez possa incomodar o espectador acostumado a um enredo mais movimentado é a obrigatoriedade de parar para pensar e refletir junto com a personagem principal, que, assim como ela, não sabe, ao certo, como será o final dessa história. E, essa, digamos, "imprevisibilidade" numa época de cinema "pasteurizado", feito para consumo fácil, realmente não deve agradar à maioria.




No campo das atuações, nada de extraordinário, mas, também nada que comprometa o resultado. O destaque vai para Adèle Haenel, que interpreta a protagonista de maneira muito convincente, bastante naturalista. Por sinal, o naturalismo é característica geral das interpretações no filme, onde todos falam como todos falaríamos na vida real, com reações igualmente "normais" caso este fosse um documentário. E, esse clima de familiaridade, com algum dos personagens podendo ser, facilmente, um de nossos amigos mais próximos, deixa a história ainda mais crível.  Os cineastas Luc Dardenne e Jean-Pierre Dardenne, mesmo depois de tantos anos, continuam afiados. Tanto no roteiro, como na direção, a mão deles é segura, competente e prende a nossa atenção. Alguns momentos, até mesmo dentro da proposta do filme, podem ter ficado um pouco mais longos do que precisaria, mas, porém, isso é mais uma questão de edição, mesmo, que, para deixar o filme ainda mais "redondo", poderia ter cortado uns minutos de determinadas cenas. Mas, isso, em hipótese alguma, compromete o filme como um todo.

"A Garota Desconhecida", é verdade, não tem grande arroubos narrativos, nem cortes de câmera mirabolantes, muito menos, uma história de estupendas nuances filosóficas. Mas, é através justamente dessa (aparente) simplicidade que o filme não somente consegue passar uma importantíssima mensagem ética para o público, como também consegue ser cinema da melhor qualidade, fazendo muito bem o básico: ótimas direção, atuações e roteiro. E, isso num tempo em que muitos cineastas badalados por aí estão preocupados mais com estilo do que com conteúdo, o trabalho minimalista (mas, de grande força narrativa) dos irmãos Dardenne se torna ainda mais necessário de ser conhecido. É cinema de valores elevados, por mais piegas que essa constatação possa parecer. Mas, se ser a favor de algo correto virou sinônimo de pieguismo, ótimo; que não tenhamos problemas em sermos partidários de filmes como "A Garota Desconhecida", "Capitão Fantástico", e tantos outros.


Nota: 8,5/10


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