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Dica de Filme

"Uma Lição de Amor"
2001
Direção: Jessie Nelson 


LINDA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO NÃO APELA PARA O DRAMA RASO, E AINDA TRAZ UMA ÓTIMA TRILHA SONORA TOTALMENTE CALCADA NOS BEATLES

Alguns filmes são fortes porque são simples. Não necessitam de muita complexidade, bastando colocar certas questões nas entrelinhas, com sutileza, com delicadeza, que o resultado já se torna plenamente satisfatório. Agora, claro, histórias simples sempre correm o risco de se transformarem ao algo apelativo, pouco natural, pouco "orgânico". O risco existe, e, de fato, muitas produções descambam para soluções fáceis e pouco interessantes. Mas, há outras que conseguem driblar isso, e mesmo com temas, aparentemente, excessivamente melodramáticos, conseguem extrair uma emoção genuína em sua abordagem. Sim, "Uma Lição de Amor" (tradução nem um pouco feliz para "I Am Sam") consegue essa façanha.




Sam Dawson é o protagonista dessa história singular. Com problemas mentais desde a infância, ele se comporta como uma eterna criança, apesar de trabalhar, e até mesmo de ter uma filha. Só que, após o nascimento desta, a sua mãe a abandona, deixando-a aos cuidados de Sam, que passa a cuidar de Lucy (sua filha) com a valiosa ajuda de seus amigos (todos também com diversos tipos de problemas mentais). O tempo passa, ao que tudo indica, sem grandes dificuldades até que Lucy completa 7 anos, e começa a ultrapassar intelectualmente o seu pai, o que preocupa a assistência social da região, que, após alguns incidentes, tira de Sam a guarda de Lucy, com o objetivo dela ser adotada. A partir desse instante, a luta de Sam será em reaver a guarda da filha, e tentar superar as suas próprias limitações. Para isso, consegue a ajuda valiosa da advogada Rita Harrison.

Pelo resumo da história, assim por alto, muitos podem até pensar: "esse filme deve ser recheado de cenas piegas". Não, necessariamente. Vai depender de como o espectador classifica algo como piegas, pois, em "Uma Lição de Amor" (o título, sim, é que é bastante piegas) o que vamos encontrar são sequências "apenas" bonitas, numa relação genuína de afeto entre pai e filha, com o agravante das limitações desse pai. Há uma cena, por exemplo, e esta diz bastante sobre a sutileza que a produção possui ao explorar questões difíceis, mostra Sam lendo uma história para Lucy, e ela se recusando, conscientemente, a dizer uma determinada palavra, com receio de "humilhar" o pai, e medo de que sinta que a filha está, intelectualmente, um passo à frente dele. É uma momento, ao mesmo tempo, belo e triste, e que, sim, não cai no pieguismo.




O filme nos brinda com outros momentos marcantes, como aqueles em que Sam interage com seus amigos, todos bastante bem humorados, cada um com características bem distantes, desde o que é cinéfilo inveterado ao que possui uma verdadeira paranoia por "teorias da conspiração". Um deles, por sinal, possui Síndrome de Down de verdade, mas, isso é tratado de maneira muito natural na história. Outro instante em que "Uma Lição de Amor" acerta a mão é na inclusão da advogada Rita Harrison na trama. Não se mostrando nem um pouco altruísta, de início, ela se recusa a aceitar o caso de Sam, só fazendo como uma forma de "desafio" às suas colegas de profissão, que veem nela uma pessoa incapaz de qualquer ato de caridade. O tempo passa, no entanto, e vemos que a vida da personagem é mais complexa do que aparenta, principalmente, a respeito de suas relações familiares.

Porém, como nada é perfeito, às vezes, o filme peca por uma montagem e um ritmo frenéticos demais. Tudo que, em alguns momentos, essa estratégia funciona, pois dá a entender que estamos diante quase de uma espécie de "documentário", deixando a ambientação mais natural possível. Porém, em outras situações (como as que mostram o escritório de Rita) são desnecessariamente aceleradas e confusas, não contribuindo muito para a imersão na trama. Felizmente, não são muitas cenas desse tipo, mas, as que são feitas dessa maneira, poderiam ter sido filmadas com mais parcimônia. Outro pequeno erro são algumas cenas um pouco cômicas demais, fora do tom, como a que mostra Rita, Sam e Annie (uma vizinha e amiga de Sam, que vai ao tribunal prestar um depoimento em favor dele) dentro de um carro por horas, após um ataque de pânico de Annie. Uma cena, convenhamos, forçada.




Um dos destaques positivos do longa é, sem dúvida, a sua trilha sonora. Baseada completamente nos Beatles (já que Sam é muito fã da banda britânica), ela é formada inteiramente por versões das canções do quarteto de Liverpool, como "You've Got To Hide Your Love Away", interpretada por Eddie Vedder e "Across the Universe", na voz de Rufus Wainwright. Só que a "presença" dos Beatles aqui não se limita apenas à trilha sonora, já que Sam cita, a todo momento, alguns acontecimentos relacionados John, Ringo, Harrison e MacCartney que ele traz para a sua vida pessoal. Em termos de atuações, não é preciso nem dizer que o elenco está formidável, não é? Sean Penn, evidentemente, é o que possui a interpretação mais incrível (como era de se esperar), porém, Dakota Fanning (que faz Lucy) e Michelle Pfeiffer (que dá a vida a Rita) estão ótimas em seus respectivos papeis, demonstrando muita autenticidade em relação às suas personagens. 




"Uma Lição de Amor" pode soar piegas e clichê pra alguns, mas, mesmo dentro de um viés que muitos possam considerar "melodramático" demais, o filme consegue ótimos resultados por tratar de temas delicados como o sentido da família e as limitações inerentes a todos de uma maneira dinâmica, bonita e pouco didática. Acima de tudo, encontraremos aqui uma bela história de paternidade, misturada com superação. Se, de repente, alguém procura algo mais "arrojado", mais "complexo" ou mais "ousado", de fato, não deve se interessar muito por este longa aqui. Mas, pra quem busca, no frigir dos ovos, apenas uma boa história, contada de maneira natural e magnificamente interpretada, "Uma Lição de Amor" é um filme certeiro, sem contraindicações. 


Nota: 8,5/10


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