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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Okja"
2017
Direção: Bong Joon Ho


"FÁBULA" DO MESMO DIRETOR DE "O HOSPEDEIRO" NÃO SE DECIDE ENTRE SER INFANTIL OU ADULTA, ALÉM DE CARREGAR NAS CARICATURAS, APESAR DA BOA INTENÇÃO DA HISTÓRIA

Existe algo que atrapalha bastante o resultado desejado para um filme, e este algo consiste em errar o tom de uma produção. Por mais que o enredo tenha a intenção de ter boas metáforas, com críticas sociais ácidas, ou coisas do tipo, se um ou mais desses aspectos passarem do "limite", o filme perde muito do seu intento original. Lembram do personagem Fortunato em "Tropa de Elite 2"? Se a intenção era fazer uma paródia aos apresentadores de programas policiais, o tiro saiu pela culatra, pois, a caricatura ali era tão "carregada", tão desproporcional, que, ao invés de ser um misto de humor e crítica, as sequências com Fortunato ficaram apenas constrangedoras. E, é isso o que ocorre em "Okja", só que em escala bem maior.




O erro de tom já começa na própria divulgação do filme. Percebam que o trailer dublado (disponível logo abaixo) é bastante colorido, histérico, evidenciando as atuações exageradas e canastronas de quase todo o elenco. No entanto, entre essas cenas, aparentemente infantis, temos outros bem fortes, e que podem facilmente ser desaconselháveis para crianças, como uma sequência, por exemplo, de tortura e até de estupro (isso mesmo) de Okja, o super porco, "estrela" da produção. Ok, nada contra um filme conter imagens fortes, no entanto, é desonesto uma indústria de cinema passar a impressão de que estamos diante de um longa infantil (ou, pelo menos, aconselhável para todas as idades), e, no meio dele, estarem cenas violentas um pouco além da conta. Isso sem contar o fato de que "Okja" é repleto de palavrões, todos gratuitos e desnecessários (afinal, o tema aqui não é máfia, pra que a linguagem precise ser chula em alguns momentos). Pra quem duvida, segue o trailer, dublado em português, que dá uma conotação de "fábula" ao filme:




E, se houve erros no tom da divulgação de "Okja", o mesmo pode ser dito da produção em si. A história é simples, mas, mesmo assim, poderia ter rendido mais. Conhecemos a primeira das personagens, Lucy Mirando, herdeira de uma poderosa empresa, expondo ao público uma descoberta que promete revolucionar a indústria alimentícia: uma espécie de "super porco" encontrado no Chile e, supostamente, reproduzido naturalmente em fazendas licenciadas da empresa. Com o objetivo de fazer o maior marketing possível dessa descoberta, Lucy resolve fazer um concurso, enviando vários espécimes desse animal para várias partes do mundo, com o objetivo de serem criados por fazendeiros de acordo com os costumes locais, e, num período de 10 anos, será escolhido o maior e mais saudável espécime de "super porco".

A trama, obviamente, dá um salto temporal de 10 anos, e passamos a conhecer Mija, uma menina que vive com o seu avô em montanhas distantes na Coreia do Sul. Lá, criam um dos "super porcos" enviados pela empresa Mirando, e que tem o apelido de Okja. Mija se dá muito bem com o animal, porém, quando chega a hora de levá-lo de volta para os EUA, devido ao concurso, ela decide resgatar o seu amigo a todo custo. No meio dessa aventura, irá encontrar um grupo de ativistas pelos direitos dos animais que fazem diversas ações ao redor do mundo, e cuja missão, naquele momento, é desmascarar as empresas Mirando para o público, já que a criação desses "super porcos" não está se dando por métodos, digamos, "naturais". Ou seja, estamos diante de uma baita aventura, com toques ecológicos e uma tremenda crítica à indústria da carne, certo? Bem, não necessariamente.




Logo nos primeiros minutos de filme, vemos que a intenção da crítica é boa, principalmente, no tocante ao fato das empresas Mirando passarem para o público uma imagem de instituição séria e compromissada com o meio ambiente, o que já percebemos ser bastante falso. O problema? Digamos que as atuações exageradas de Tilda Swinton (que faz Lucy) e Jake Gyllenhaal (que interpreta Dr. Johnny Wilcox, fracassado biólogo que trabalha para Lucy) falam por si. Muito dirão que as atuações são "propositadamente" caricatas. De fato, algumas situações precisam ser "caricatas" para que a crítica funcione, mas, existe um tom que precisa manter a história numa determinada linha, pois, com coisas caricatas demais fazem com que o resultado fique mais ridículo (ou, constrangedor) do que crítico propriamente dito. E, é isso o que ocorre em muitas ocasiões aqui.

Ironicamente, muitos soltam farpas quantos às atuações exageradas dos atores orientais, mas, as melhores interpretações de "Okja" são, justamente, deles. Seo-Hyun Ahn e Byun Hee-bong (Mija e seu avô, respectivamente), se não conseguem ser memoráveis, ao menos, se mostram bem mais à vontade em seus papeis do que o restante do elenco. Nesse sentido, outro que não consegue achar o tom certo para o seu personagem, é Paul Dano, que tenta fazer de Jay, líder do grupo de proteção aos animais, uma pessoa misteriosa, mas, no final, só consegue fazer dele alguém bastante apático. Outro ponto negativo do longa é o seu roteiro, cuja premissa é boa, porém, é carregado de furos incríveis (como o fato de, a toda hora, qualquer um poder entrar e sair tranquilamente de megacorporações e laboratórios secretos com extrema facilidade e sem praticamente nenhuma vigilância).




Mas, na realidade, o grande responsável pelos erros de "Okja" é o seu maestro, Bong Joon Ho, que já nos deu o ótimo "O Hospedeiro", mas, em contrapartida também, o mediano "O Expresso do Amanhã". E se, nesse último, o diretor desperdiça a oportunidade de fazer um filme mais crítico em detrimento de situações mais caricatas e cômicas, em "Okja", ele está mais "à vontade" nesse sentido, o que não é um elogio, diga-se. Na verdade, neste aqui, ele só acerta o tom em poucas sequências, como no desfile patrocinado pelas empresas Mirando, mostrando o quanto o público pode ser volúvel e facilmente manipulado, e na penúltima sequência do filme, que expõe uma espécie de "abatedouro" dos "super porcos" de maneira tão sombria, que mais parece imagens de um campo de concentração nazista. E, mesmo acertando, em tese, nesse caso também faltou certo bom senso, pois, essa sequência está longe de ser recomendada para uma produção que aparenta ser infantil.

Quando "Okja" termina, sobra muito pouco do que ele se propôs a contar. Temos umas duas boas interpretações aqui, uns dois bons diálogos acolá, uns efeitos especiais só bacanas, umas três críticas interessantes, mas, nem pouco aprofundadas, e só. No geral, o filme foi engolido pelo excesso de caricaturas e histrionismos, tornando tudo mais risível do que reflexivo. Enfim, boas intenções jogadas fora em nome de muito estilo e pouco conteúdo. Uma pena, já que a premissa pedia algo mais incisivo, algo mais ácido, e sim, talvez algo que se levasse um pouco mais a sério. Afinal de contas, o que não faltam são exemplos de ótimas fábulas infantis, mas, que possuem uma mensagem bastante adulta, e que não precisam apelar demais para o caricato ou para o pastelão infantiloide, desde o estonteante "Edward Mãos de Tesoura" até o recente "7 Minutos Depois da Meia-Noite". Já, "Okja", infelizmente, é apenas um filme mais ou menos divertido, e com boas intenções, porém, com algumas outras passagens bem constrangedoras. Não mais que isso.


Nota: 6/10


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