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Dica de Filme

"Antiviral"
2012
Direção: Brandon Cronenberg


PERTURBADORA DISTOPIA FAZ UMA INTERESSANTE ANÁLISE A RESPEITO DO CULTO DOENTIO ÀS CELEBRIDADES

O mundo está cada vez mais à mercê das celebridades. Com essa tendência, o consumo a tudo o que se refere a elas virou quase uma obrigação dos tempos atuais. Queremos nos espelhar nas celebridades, sentimos essa "necessidade", para termos nelas uma espécie de inspiração, como exemplos a serem seguidos. São, enfim, "semi-deuses" dos tempos modernos. Mas, e se pudéssemos ter "algo" além do que notícias de fofocas ou fotografias comprometedoras dos famosos mais queridos? Como uma doença deles, por exemplo? Isso mesmo. É essa a premissa insana de "Antiviral", primeiro filme de Brandon Cronenberg, filho do renomado cineasta David Cronenberg. E, assim como o pai, Brandon, a julgar por sua estreia no cinema, parece ter predileção pelos males do corpo e da alma das pessoas, transformando as doenças em alegarias para o nosso vazio existencial. 




A primeira sequência deste filme já mostra uma provocação. Um rapaz, aparentemente, muito doente, está sentado em frente a um outdoor onde se lê: "Clínica Lucas: Pelo Conhecimento da Verdade". Logo depois, descobrimos que o rapaz, se chama Syd March, e que, ironicamente, trabalha na tal Lucas Clinic. E, em que consiste esse trabalho? Simples: injetar doenças de celebridades a quem possa pagar por esse "serviço". Portanto, se alguém quiser ter a gripe que um famoso ator adquiriu, ou contrair uma infecção estomacal que uma cantora conhecida teve, essa clínica possui todas essas enfermidades, armazenadas. Algumas conversas entre Syd e os seus companheiros de trabalho e os seus clientes dão o tom de uma das mensagens que a história quer passar: por muitos acharem que as celebridades são o mais próximo da perfeição na sociedade atual, muitos querem "ter" as suas doenças, para se sentirem mais próximas de pessoas tão "especiais".

No entanto, o próprio Syd anda bastante perturbado com o seu ofício. Sempre que pode, injeta várias doenças em si para oferecer de "contrabando". Só que essas constantes injeções começam a cobrar um alto preço em seu organismo, que se encontra mais e mais debilitado. Em paralelo, ele ainda se envolve numa trama de conspirações e de um possível assassinato, enquanto precisa encontrar uma cura para as suas enfermidades. Ao mesmo tempo vamos vendo toda a paranoia que se gera em torno das celebridades, onde cada evento da vida delas se transforma num espetáculo, desde o que momentos íntimos vazados na Internet, até o seu funeral. Obviamente, que ainda há espaço para se alfinetar a pseudo-filantropia praticada por muitos famosos, numa forma de publicidade que induz as pessoas a cultuarem as celebridades como seres perfeitos (algo ótimo para vender todo tipo de produto).




O roteiro de "Antiviral", a cargo do próprio Brandon Cronenberg, é meticuloso ao abordar temas críticos, ao mesmo tempo que explora a fragilidade física e mental de seu protagonista, sem que um aspecto se sobreponha ao outro. Ao mesmo tempo que observamos Syd March e as suas estranhezas, também somos provocados com uma boa crítica aqui e acolá sobre a futilidade da sociedade de hoje, que prefere "viver" na dependência do cultos aos famosos, do que ter uma personalidade própria. Até mesmo quando a história envereda por caminhos meios complicados, com a trama perdendo um pouco o foco lá pela metade do segundo ato, a narrativa continua interessante. E, isso se deve muito ao fato da trama não ter a correria habitual do cinema hollywoodiano. Aqui, até nos momentos mais tensos, de catarse, com um certo "clímax", são comedidos, orgânicos, fazendo com que o espectador absorva os detalhes que são necessários.

No campo das atuações, nenhum grande destaque ou mérito. Caleb Landry Jones faz bem o seu Syd, não extrapolando nos histrionismos, mesmo nos momentos em que se corria esse risco. Dos coadjuvantes, a presença de luxo de Malcolm McDowell (o eterno Alex, de "Laranja Mecânica"), numa pequena, mas, sóbria, participação. A fotografia do filme é outro destaque, sempre bastante limpa, nítida, como se denotasse uma certa ironia de que tudo é tão limpo, saudável e perfeito de que algo pode estar errado. E, pra completar, a direção de Brandon Cronenberg presta bastante homenagem ao seu progenitor, abordando temáticas intrigantes, embaladas por situações muitas vezes bizarras, não apelando, felizmente, para o mau gosto. O diretor consegue realizar uma condução narrativa muito interessante, mesmo com pouquíssima ação, e com uma temática tão crítica.





"Antiviral", de fato, não é um filme para todos, principalmente, aqueles mais acostumados a um cinema, digamos, mais "tradicional". Contudo, quem se está familiarizado com a obra de David Cronenberg, não irá ter grandes surpresas, já que o seu filho consegue realizar um pouco do que de melhor o seu pai já fez, sem, obviamente, chegar num patamar tão elevado. Mesmo assim, trata-se de uma produção "fora da curva", intrigante e que aborda um tema bastante atual de maneira muito inusitada. Com o cinema recente cada vez mais careta e convencional, fica válido conferir um exercício estético e temático com uma qualidade assim.

Nota: 8/10


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