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Dica de Filme

"O Operário"
2004
Direção: Brad Anderson


SUSPENSE UM TANTO CONVENCIONAL GANHA FORÇA ATRAVÉS DA MAGISTRAL INTERPRETAÇÃO DE CHRISTIAN BALE

A gama de filmes de suspense com tramas intrincadas, mirabolantes, cheias de reviravoltas (os chamados plot twists) é imensa. Poucos, no entanto, conseguem algum resultado satisfatório. Isso se deve muito porque os seus realizadores se prendem demais a "estilo", e se esquecem de coisas óbvias, como uma boa história e personagens interessantes que justifiquem o tal "estilo". E, é o que vamos mais ou menos encontrar em "O Operário", filme razoavelmente interessante, comandado por Brad Anderson, mais conhecido por ter dirigido séries de TV, como "The Shield" e "The Wire". Aqui, mesmo com uma trama que, ao final, mostra-se meio óbvia (apesar de seu forte apelo emotivo), ele consegue um resultado satisfatório, mesmo que carregado de alguns clichês.




Vamos acompanhando a vida cotidiana e solitária de Trevor Reznik. Há cerca de um ano que ele simplesmente não consegue dormir. Trabalha numa fábrica como operário, o que lhe causa ainda mais solidão, pois, ele não consegue se conectar com os companheiros de serviço, todos com o estereótipo de machão bruto e acéfalo. Só consegue alguns momentos de paz e sossego quando visita uma garota de programa chamada Stevie, e quando vai tomar um café num restaurante, e é atendido sempre por Marie. Ambas são o mais próximo que Trevor tem de amigos de verdade. Porém, a sua saúde física e mental começa a se agravar mais e mais devido à sua insônia, o que faz com que ele emagreça muito e tenha constantes lapsos de memória. E, é graças a essa fragilidade que ele se envolve (ou, pelo menos, acha que está envolvido) numa perigosa trama, que pode envolver até assassinatos.

Um dos grandes atrativos do filme é (até certo ponto) não sabermos o que está acontecendo com Trevor; se as suas paranoias são autênticas, ou se são fruto de sua mente perturbada. Claro, pelo fato do enredo não ser tão complexo quanto aparenta, fica até fácil imaginar o que está acontecendo com o protagonista em linhas gerais, só faltando ao espectador desvendar aqueles detalhes mais minuciosos. A grande falha no roteiro está justamente em dar pistas evidentes demais, o que expõe facilmente a fragilidade do texto. Na realidade, após a primeira (e, intrigante) cena, o filme se demora por um longo tempo até os acontecimentos estranhos começarem a atormentarem Trevor. Não haveria problema se, nesse intervalo, houvesse uma construção de personagens interessantes, algo que não há. Todos os que giram em torno do protagonista são caricatos e sem grande função narrativa, com exceção de Stevie e Marie. Só que estas só vão se conectar mais à narrativa principal ainda no segundo ato.




Ao menos, quando a trama toma ares de suspense, alguns dos péssimos personagens saem de cena, para haver uma concentração maior entre Trevor, Marie e Stevie, com a adição do misterioso Ivan. Apesar de algumas situações se mostrarem inverossímeis demais, como o "atropelamento voluntário" de Trevor, o filme ganha substância e ritmo, mas, sem apelar para algo frenético demais. Ao contrário: grande parte do longa tem como característica uma narrativa lenta, que tenta envolver o espectador num clima que, às vezes, é de terror, e lembra um pouco "Seven", por exemplo. E, tudo vai culminar num final que, se não é um exemplo de excelência, consegue amarrar as pontas soltas que a história foi deixando ao longo do caminho. Um desfecho nem tão impactante assim, mas, triste, e, ao mesmo tempo, bonito.

Porém, um fator em especial faz com que "O Operário" não caia na irritante mesmice que prejudica a maioria dos suspenses por aí, e esse fator atende pelo nome de Christian Bale. O seu nível de entrega ao personagem de Trevor consegue superar, inclusive, e não é nenhum exagero, o que Robert De Niro fez em "Touro Indomável". Pra se ter uma ideia, Bale emagreceu inacreditáveis 28 quilos, numa dieta à base de apenas uma lata de atum e uma maçã por dia. Óbvio que nada disso seria suficiente se ele não fosse um ótimo ator, e ele é. Sua atuação não explora apenas o trágico aspecto físico do personagem, mas, também a sua mentalidade, num misto de depressão e esquizofrenia, o que torna a jornada do protagonista bastante crível, mesmo com os problemas da trama. Nesse sentido, o cineasta Brad Anderson consegue um bom resultado por não carregar o filme com estilo demais e substância de menos, mesmo que, fez ou outra, ele se renda a alguns convencionalismos do gênero.




No final das contas, "O Operário" só não é mais um desses filmes esquecíveis que são exibidos na TV aberta sábado à noite devido à sua direção sóbria e (principalmente) ao seu ator principal, que nos mostra uma interpretação de muito impacto. Tivesse tido um roteiro mais bem construído e uma direção mais ousada, não é exagero nenhum dizer que ele estaria no mesmo nível de "Os Suspeitos" e "Clube da Luta". Apesar disso, ainda é um filme válido de ser assistido, contanto que se crie expectativas demais, principalmente pelo fato de que a trama dá a entender que, no final, estaremos diante de algo memorável, o que está longe de ser. Vejam o filme, portanto, com um olhar descompromissado, com um olhar especial para a atuação de Bale. Vocês, com certeza, ainda sairão no lucro.


Nota: 7,5/10


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