dica de filme ("Testemunha de Acusação")


Dica de Filme

Testemunha de Acusação
1957
Direção: Billy Wylder


A junção de Billy Wylder com Agatha Christie que rendeu um dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos

O mistério, seja em filme ou em livro, é uma arma poderosa. Tão poderosa que pode fazer qualquer uma dessas obras ser maravilhosa, ou um fiasco total. 

Afinal, poucos realizadores (sejam cineastas ou escritores) possuem o traquejo necessário para arquitetarem boas histórias de suspense, daquelas que fazem o leitor (ou espectador) ficar tenso o tempo todo, e ainda ser surpreendido no final. São poucos os que conseguem essa façanha. Uma delas era a escritora Agatha Christie, com seus romances ou contos cheios de mistérios indecifráveis até o último momento. 

O que aconteceria, então, se esse talento se unisse a um dos melhores cineastas norte-americanos de todos os tempos, Billy Wylder? Bem, isso aconteceu de fato, e o resultado foi este "Testemunha de Acusação".




Como é de praxe nas produções de Wilder, logo nos primeiros minutos, você já se sente imerso na narrativa, compactuando com os personagens como se eles fossem seus velhos conhecidos. Aqui, essa tarefa recai nos ombros do ranzinza (ao mesmo tempo que simpático e divertido) advogado Wilfrid Robarts, que, voltando do hospital devido a um problema de saúde, é recomendado que não pegue casos criminais, que demandem muito esforço. 

Porém, sua paz é logo abalada pela chegada de um velho amigo que lhe traz um caso, no mínimo espinhoso: defender um rapaz acusado de matar um viúva, com quem mantinha uma estreita amizade. As coisas se complicam com a chegada na trama da esposa do acusado, Christine Vole. E, claro, como é típico nas histórias de Agatha Christie, não saberemos da verdade até os últimos minutos (acreditem, o final é realmente bastante engenhoso).

Só que, para que uma história de suspense possa prender a atenção do começo até o final, é preciso talento dos seus realizadores, e isso, Wylder sempre teve. Não demora nem um pouco para que nos tornemos amigáveis a Wilfrid, sempre com tiradas engraçadíssimas e ácidas na medida certa. E, quando a investigação, em si, começa, o cineasta consegue impôr uma narrativa bastante dinâmica, não desperdiçando nenhuma cena, nenhum personagem, nenhum diálogo. Tudo no lugar. 

E, o melhor: você se importa de verdade com os personagens, e em saber o que está por trás dessa história que culminou num assassinato (ainda) indecifrável. Nesse sentido, a construção dos personagens é primorosa, desde o já citado Wilfrid, passando pelo acusado Leonard Vole, e culminando numa fascinante Christine Vole, que não se sabe exatamente qual é o seu objetivo nisso tudo.




Isso tudo some-se ao fato de que estamos falando de um filme de tribunal também, já que boa parte de sua projeção se passa em um. E, como toda boa produção desse subgênero, "Testemunha de Acusação" não se mostra cansativo em nenhum momento. 

Ao contrário: em determinadas cenas, sentimos que estamos ali, junto com Wilfrid e cia, no calor do momento, tentando provar a inocência de Leonard a todo custo. Talvez, o único ponto negativo do filme, e, consequentemente, da trama, seja num momento em que Wilfrid e seu amigo são, de certa forma, "chantageados" por uma figura misteriosa que surge no meio da história. 

Sim, essa figura é a peça-chave para o desfecho do mistério, mas, fica meio incompreensível que alguém da inteligência do advogado tenha caído numa espécie de "jogo" até de maneira bem fácil. Digamos que se trata de um pequeno "furo" na história.

E, claro, nada de bom no filme seria possível sem o empanho dos atores, que, aqui, mostram bastante desenvoltura com os seus personagens, a começar por Charles Laughton, que interpreta de maneira muito sagaz o icônico Wilfrid. Seu jeito bonachão, ao mesmo tempo que perspicaz, rende os melhores momentos da produção, seja por suas tiradas espirituosas, seja por suas deduções lógicas. Um excelente trabalho de Laughton. 

Não muito atrás, fica Marlene Dietrich, que faz da sua Christine uma personagem bastante interessante, com um passado um tanto obscuro. O restante do elenco também se sai muito bem, seja para criar um clima de suspense, seja servir de alívio cômico. Uma trama, enfim, completa em vários sentidos.




Não à toa, "Testemunha de Acusação" é considerado um dos melhores filmes de tribunal já feitos. Com um roteiro simples, mas, engenhoso (baseado na obra de uma escritora mestre no assunto), uma direção extremamente segura de um dos maiores cineastas que já passaram pelo cinema, e um elenco deveras afiado, o longa é um ótimo exercício narrativo, além de uma instigante brincadeira para saber como será o final de uma história tão cheia de mistérios e reviravoltas. Em suma: cinema com "C" maiúsculo.


NOTA: 8,5/10


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