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DICA DE FILME

"FAHRENHEIT 451" (1966)




Em termos de adaptações literárias, o cinema esta repleto de altos e baixos. Com qualidades diversas, existem aquelas produções que reproduzem, fidedignamente, cada passagem de um livro, e outras que tomam a liberdade de mudarem parcial ou totalmente o contexto em que se passa a obra original para uma melhor adequação do momento. O grande cineasta François Truffaut conseguiu escapar das duas armadilhas com a transposição de "Fahrenheit 451" para a tela grande, simplesmente porque optou em contar uma ótima estória, tendo como base o livro. O texto original se transforma num auxiliar importante, e não num carrasco.

O enredo dá conta de uma sociedade futurista que se vê às voltas com um mundo sem livros. Na realidade, passam a ser proibidos por lei, pois segundo as autoridades, eles tornam as pessoas mais infelizes, por fazê-las "pensar demais". Os bombeiros, implacáveis, caçam nas casas todo e qualquer livro, e os queimam. Um oficial em particular, Montag, porém, vê-se insatisfeito com o seu ofício.  Durante algumas apreensões, pega alguns exemplares para lê-los depois, e vai percebendo, no decorrer da estória, o absurdo que o regime vigente impõe.




O filme possui passagens memoráveis, como a de uma senhora que prefere morrer num incêndio provocado em sua biblioteca, ou mostrando uma comunidade onde as pessoas, literalmente, "tornam-se" livros (eles decoram cada passagem de uma obra, como "Dom Quixote", e, antes de morrerem, repassam todo o texto a alguém mais jovem). A narrativa flui muito bem, mesmo que para alguns pareça um tanto simplista, mas essa "falta de ousadia" proporcionou à produção focar-se naquilo que é mais interessante (e importante), sem desviar a atenção de forma desnecessária. Diria até que Truffaut se faz bastante ausente nesse filme, deixando a estória em primeiro plano.

Destacaria também os diálogos, diretos e bastante eficientes. Um exemplo:

- Por que queimar livros?

- É um trabalho como qualquer outro. Bom trabalho, com muita variedade. Segunda queimamos Henry Miller; terça, Tolstoi; quarta, Walt Whitman; sexta, Faulkner; e sábado e domingo, Schopenhauer e Sartre. Queimamo-los até ficar cinza e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial. Os livros são apenas lixo. Não tem interesse nenhum.

- Então, por que ainda há pessoas que os lêem e são tão perigosas?

- Precisamente, porque é proibido. Porque faz as pessoas ficarem infelizes.

- Acredita nisso mesmo?

- Sim. Livros perturbam as pessoas, as tornam anti-sociais.





E, assim o filme segue, como uma grande alegoria contra o autoritarismo e em prol da leitura e do conhecimento. Uma estória, com certeza, bem mais real do que se possa imaginar, visto que a censura, em maior ou em menor grau, sempre esteve presente em todos os governos, de todas as épocas, em todos os lugares. "Fahrenheit 451" fala diretamente aos inconformados, aos que querem a liberdade como forma de exercerem sua humanidade, sem proibições absurdas, nem violentas opressões. Truffaut, calmamente, como sempre fez em muitos de seus filmes, construiu uma obra que é mais do que aparenta ser, e nos diz mais do que imaginamos, ao final.

Ah, e pra quem interessar, Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel entra em combustão, equivalente a 233° Celsius.





NOTA: 9/10.

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