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DICA DE LIVRO

"FUP" (1983)




Por vezes, a simplicidade diz mais do que um extenso discurso, regado a palavras rebuscadas. Basta que seu autor tenha conhecimento do material que vai produzir e queira, de fato, que o maior número possível de pessoas tenham acesso a ele. "Fup" pertence a esse seleto grupo. Um livro pequeno, com cerca de 90 páginas, mas que se atém a questões tão importantes que fica difícil não colocá-lo na categoria de clássicos.

De início, a estória fala de um senhor que não se enquadra nas superficiais esferas sociais que encontra pelo caminho. O livro começa falando do nascimento dele, chamado Jake, passando pelo nascimento de sua filha, e, posteriormente, de seu neto, para desembocar na morte dela, e na subsequente adoção da criança pelo avô. Apelidado de "Miúdo", ele recebe todos os cuidados possíveis de Jake, que passa, mesmo que temporariamente, a mudar alguns de seus hábitos devido ao novo hóspede, menos um: o de fabricar seu próprio uísque, o "Velho Sussurro da Morte".




Com o tempo, "Miúdo" cresce (até demais, tornado seu apelido algo irônico), passando a ter verdadeira fixação por fazer cercas. Eis que ele encontra, um dia, uma pata filhote abandonada num dos buracos dessas cercas. Seu avô é quem dá o nome de Fup ao pequeno animal, e sua presença na casa, mesmo que indiretamente, muda o cotidiano de todos, principalmente, em termos de comportamentos. É bom lembrar que nesse meio tempo, "Miúdo" tenta matar, há anos, um javali (o "Cerra-Dente"), que destroi todas as cercas dele.

Jim Dodge, o autor do livro, fez um trabalho fascinante com muito pouco. Sempre permeado por narrativas curtas, ele nos faz íntimos dos personagens, mesmo que sejam todos eles bem diferentes entre si. Jake, desbocado e feroz em suas ideias, é o oposto de "Miúdo", um rapaz sempre calmo, tranquilo, e focado em seu trabalho na fazenda onde vivem. Num determinado momento, é assim que o escritor se refere aos dois:

"Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sanguínea daquilo que movia seus corações".




A pata Fup também tem sua personalidade bem delineada no livro, ora tendo um temperamento forte, ora sendo afável com seus donos. É ela o fator que quebra esteriótipos dos personagens, mostrando mais as diferenças entre avô e neto. Com sua obsessão em matar "Cerra-Dente", "Miúdo" acaba perdendo um pouco de sua característica calma e começa a ficar mais irritado, e Jake, sempre tão impulsivo, aconselha o rapaz a moderar mais suas atitudes.

Quando menos se espera, o livro acaba, e em poucas páginas, percebemos que lemos um mosaico de ações e sentimentos, desde o sentido da amizade e do respeito, até a valorização das atitudes mais simples em busca do que chamam de realização pessoal, ou, apenas, felicidade. E, uma ode a uma brutal honestidade e espontaneidade, mesmo tendo como consequência direta o afastamento às convenções sociais, que mais se assemelham a dogmas. Uma obra "perigosa", e que, com certeza, merece ser conhecida por um número maior de pessoas.


NOTA: 9/10.

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