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DICA DE FILME

"O EXPRESSO DA MEIA NOITE" (1978)




Existem filmes que, de tão improváveis, acabam dando certo. No caso de "O Expresso da Meia Noite", alguns fatores soavam desfavoráveis na visão de um grande estúdio hollywoodiano, como um diretor e um roteirista em começo de carreira (Alan Parker e Oliver Stone, respectivamente), pressão desse mesmo estúdio para transformar os dez minutos finais da produção num enredo de ação e aventura (num filme de pesado drama psicológico), atores desconhecidos para os principais papéis e um orçamento modesto até para a época (cerca de 1,8 milhão de dólares). Some-se isso ao fato da pré-estréia dele ter sido no "temido" Festival de Cannes. Tinha tudo para dar errado; mas, deu tudo certo.

O que talvez tenha ajudado na qualidade do filme foram o esmero e a dedicação com que os envolvidos se empenharam na produção. A direção competente de Parker, o roteiro envolvente de Stone, a atuação de Brad Davis... Predicados que foram o diferencial. A estória, girando em torno de um rapaz norte-americano que é pego por contrabando de haxixe na Turquia, é apenas o pano de fundo. "O Expresso da Meia Noite" narra, a partir daí, uma luta inglória do personagem Billy Hayes para que seja feita apenas justiça num ambiente onde brigas políticas e diplomáticas fazem com que ele se torne um bode expiatório.




Em alguns momentos, o período histórico ajuda a explicar o porquê o governo turco decretar tolerância zero ao tráfico de drogas. Numa cena, uma das personagens pega um jornal, cuja manchete principal diz que o então presidente norte-americano Richard Nixon estava pedindo a morte de terroristas. Bom lembrar que a Guerra Fria ainda era uma realidade bastante palpável.

Com todos esses vieses políticos, o drama de Billy poderia ter sido relegado a segundo plano, mas ocorre, justamente, o contrário. A injustiça a um indivíduo é usada como metáfora para diversas outras injustiças, ampliando as possibilidades. Há críticas, por exemplo, ao sistema judiciário, onde a corrupção não é apenas uma realidade, mas é o combustível, sem o qual todo esse sistema trava o seu funcionamento.




O filme possui cenas memoráveis, como o julgamento de Billy que lhe confere prisão perpétua e outra onde ele, ensandecido, espanca Rifki, um delator da prisão onde está encarcerado, culminando num acesso de fúria impressionante. Ponto para a direção e os atores, cuja sincronia aqui foi soberba. Outro ponto a favor é a trilha sonora, minimalista e sombria, que dá um ar ainda mais de opressão. A produção também abre espaço para questionar conceitos como loucura e solidão; temas tratados de forma bem interessante, mesmo que não tão aprofundados.

"O Expresso da Meia Noite" é um dos melhores filmes de prisão já feitos, simplesmente porque se foca em assuntos alheios à própria prisão, mesmo que pesados, até para os dias de hoje. Triste em muitas ocasiões, o filme pode não ser uma experiência agradável, porém, é isso que o torna atemporal. Uma ousadia em falta na maioria das produções atuais.





NOTA: 9,5/10.

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