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FILME NÃO RECOMENDÁVEL

"O SOM AO REDOR" (2012)




Algumas coisas são supervalorizadas por diversos motivos. No cinema, existem aqueles tipos de filmes que, de tão comentados e elogiados, parecem ser o último grande clássico da sétima arte. A experiência mostra, porém, que, quando vistos com atenção, muitos não valem o quanto pesam. "O Som ao Redor", primeiro longa-metragem do cineasta e crítico de cinema Kléber Mendonça Filho, encaixa-se nessa descrição.

Interessante notar que, mesmo antes da estréia do filme, ele já recebia rasgados elogios da crítica dita especializada. Só que essa, como bem se sabe, molda opiniões desde sempre, e quando uma ideia é bem alicerçada, muitos se sentem na obrigação de seguí-la. Eis que "O Som ao Redor" começa a ser exibido, e tudo a cerca dele vai se tornando unânime. Portanto, mesmo que ele não tenha cumprido o seu papel como cinema, a alcunha de obra-prima já estava posta. E, este é apenas o menor dos defeitos que podemos encontrar na produção.




O filme começa com uma sequência, sem cortes, mostrando um condomínio típico de qualquer zona nobre dos bairros das grandes cidades. Aparentemente, os moradores retratados estão contentes com seu status quo. De início, uma percepção: a estilização das cenas irá se sobrepor ao suposto conteúdo que "O Som ao Redor" quer passar. Não que isso seja um defeito. Tarantino e Kubrick, por exemplo, fizeram isso, quase sempre com ótimos resultados. Porém, neste aqui, falta algo. Ao contrário da ironia e do sarcasmo dos cineastas citados, Kléber Mendonça resolve se levar a sério demais, talvez por receio de gerar certos desafetos. Quando a seriedade é o mote de uma produção que se propõe crítica, suas abordagens devem ser bastante profundas. Só que "O Som ao Redor" não consegue arranhar nada nem ninguém.

Um dos seus pontos fracos é o roteiro. Sob o pretexto de usar "sutilezas" para tentar falar de temas como o estilo de vida mesquinho e individualista de certos setores da sociedade, ele acaba sendo complacente com o que deveria criticar. São coisas esparsas e pequenas demais, que perdem a força ao longo da narrativa. Exemplo é a tão falada cena em que uma moradora de um dos prédios se queixa de que sua revista Veja não está mais vindo devidamente embalada no plástico. A intenção de retratar a futilidade desse tipo de pessoa, tão comum em nosso atual cotidiano, pode ter sido boa, mas do jeito que ficou, acabou sendo uma sequência apenas ridícula, um tanto fora do contexto geral da estória.




Algo também que poderia ter sido melhor explorado, e não foi, diz respeito aos "guardas" que fazem a segurança privada do local. Só aí daria margem para se tecer um sem número de provocações, referindo-se desde a corrupção policial, passando pelo privilégio que alguns moradores acham que têm, e, claro, à própria questão da segurança pública. Kléber Mendonça, no entanto, limitou-se a mostrar o cotidiano deles, usando, para isso, várias cenas monótonas. Mais oportunidades desperdiçadas, pois.

Inclusive dois desses personagens que interpretam esses guardas protagonizam a pior cena do filme, onde, do nada, surgem revelações bombásticas de uma estória ocorrida na infância deles, o que dará a entender que um acerto de contas com o passado está próximo. A interpretação disso pode ser que o coronelismo e a injustiça social podem imperar em qualquer ambiente, mesmo na cidade grande. Só que isso foi colocado tão "de repente", de forma tão abrupta, que acabou ficando forçado e ilógico. A única possível catarse do filme não deu certo.




Agora, claro, a produção tem seus méritos. A parte técnica é impecável, com enquadramentos, planos, fotografia, tudo muito bem cuidado. No entanto, beleza não põe mesa, e essa pintura se mostra muito bonita, mas vazia. É muito clima e pouca tensão. Os próprios atores não ajudam, pois todos aqui estão muito ruins, inclusive, o quase sempre ótimo Irandhir Santos. Prova de que o problema, de fato, está na direção confusa de Kléber Mendonça. Só não deu pra perceber se essa confusão foi proposital ou falta de habilidade, mesmo.

Ao final, "O Som ao Redor" acaba sendo um filme frouxo, sem consistência. Vendeu a ideia de que iria tocar o dedo na ferida de questões urbanas urgentes, porém, preferiu a zona de conforto. Em cima do muro, sob muitos aspectos, ele conseguiu agradar a gregos e troianos, e saiu intocável de qualquer debate que poderia ter criado. No mínimo, foi covarde. Pra quem quer algo realmente relevante, que toque diretamente em assuntos importantes (apesar de polêmicos), a sugestão são os filmes de Sérgio Bianchi. Este, ao menos, não precisa ser cauteloso em demasia com ninguém.





NOTA: 3/10.  

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