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DICA DE FILME

"CRÔNICA DE UMA FUGA" (2006)




O cinema latino-americano é profícuo em abordar como tema as ditaduras militares que acometeram a região entre as décadas de 60 e 80. Muitos consideram o assunto um tanto batido, achando um exagero tantos filmes falarem desse período. Porém, esse aparente "exagero" se deve, justamente, à omissão das próprias autoridades desses países, cuja a liberação de informações do que ocorreu naquela época nunca é feita, ficando, pois, esse parte da história, bastante obscura. Cabe à arte, portanto, cumprir esse papel, baseada nos relatos dos sobreviventes, daqueles que foram sequestrados e torturados, mas conseguiram escapar. "Crônica de uma Fuga" está nesse rol, e é um dos melhores filmes recentes a tocarem nesse assunto.




Uma coisa que chama a atenção nessa produção é o uso de sua câmera. Em quase todo o tempo ela fica na perspectiva dos que estão presos. Se eles encontram-se deitados no chão, ela também está; caso estejam amarrados no banco de um carro, ela igualmente os acompanhará. Quando não há essa movimentação da câmera, ela, em outras vezes, foca bem de perto o rosto dos personagens. Essas técnicas se mostraram bastante eficientes, pois deixam o espectador acompanhando a ação pela ótica das vítimas, como se ele também estivesse sendo um dos oprimidos. Isso deixa as cenas bem mais agoniantes e revoltantes, algo necessário à crítica que esse tipo de filme se presta a passar.




Outro aspecto que a produção aborda bem é como alguns presos políticos, para dar tempo de seus companheiros que estão soltos de fugirem, acabam dando nomes de pessoas aos militares que eles apenas conhecem, mas que não estão ligados com qualquer tipo de movimento político. Na cabeça de quem fazia esse tipo de delação, quando se descobrisse o engano, a pessoa pega como bode espiatório seria solta. É por isso que Claudio Tamburrini, goleiro de um time de futebol, é capturado: tão somente por conhecer um dos que estão encarcerados. No cativeiro, ele, aos poucos, faz vínculo com os que ali estão. Todos percebem que, se não fugirem, logo serão assassinados.




O diretor Israel Adrián Caetano consegue ótimos resultados com o que tem em mãos. A narração dos fatos é eficiente e nenhuma cena é desperdiçada. Sua câmera, como já dito antes, sempre está no lugar certo, capturando diversas sensações de tal forma que o espectador se sente no meio do fogo cruzado. Além disso, os atores estão todos muito bem à vontade em seus papéis, principalmente Rodrigo de la Serna ("Diários de Motocicleta"), que interpreta Cláudio.




Ao contrário de outras produções do gênero, "Crônica de uma Fuga" não se submete a ser partidário ou panfletário, mas, sim, expõe como regimes autoritários, em geral, rebaixam a dignidade humana, e pessoas, em situações extremas, fazem de tudo para sobreviverem. Um filme realmente incômodo, que extrai ótimas reflexões sobre esses temas. E, que ainda assim é cinema da melhor qualidade.


NOTA: 8,5/10.

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