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DICA DE FILME (RAZOÁVEL)

"OS IDIOTAS" (1998)




Ame-o ou odei-o; coloque-o num altar ou amaldiçoe toda a sua família. A personalidade do cineasta Lars Von Trier é feita de extremos. Paralelo a isso, seus filmes sempre parecem querer ultrapassar alguma espécie de limite, seja no conteúdo ou na estética. Em sua estréia com "Os Idiotas", o limite pareceu ser a linha que separa a sanidade da loucura, ou, pelo menos, o que consideramos como sendo um comportamento (a)normal em sociedade. Fazendo parte do movimento Dogma 95, a produção segue à risca seus mandamentos: tratamento artesanal de câmera, sem trilhas-sonoras e com a utilização de atores amadores.

No filme, a sensação de incômodo (algo, de fato, recorrente na trajetória de Von Trier) é constante. O enredo fala de um grupo de pessoas que agem como se fossem deficientes mentais, com o intuito de se divertirem, e, por tabela, quebrar alguns padrões sociais. Sem o menor tato, o longa mostra ao espectador cenas desconfortáveis (e até questionáveis) quase o tempo todo.




O foco da narrativa, porém, não é o grupo em si, mas Karen, recém-chegada a ele, mas que se comporta de maneira distinta. Nitidamente, ela não aprova certas ações deles, e até se mostra mais consciente. Num determinado momento, enquanto todos brincam com uma lata de caviar, ela diz: "Mas, isso custou muitos caro. Imaginem quantos não estão passando fome neste instante?"

É a presença de Karen que irá, gradativamente, colocar em xeque o comportamento do grupo. Até que ponto esse tipo de ação é válida? Será que, de tanto fingir-se de idiota, em algum momento alguém pode, realmente, enlouquecer? E (mais importante ainda para a mensagem do filme), quem se finge de louco teria coragem de fazê-lo no seu meio social cotidiano, ou essas atitudes só são feitas dentro do grupo, onde se é, de alguma maneira, compreendido?




Essas são todas perguntas que serão dadas por Karen; não através de palavras, mas pela sua própria experiência: uma vida tão sofrida e amargurada, que seria, fácil se tornar uma pessoa perturbada. Nesse momento, certos membros do grupo sentem-se envergonhados, pois, finalmente, encontraram alguém com motivo real para ser um idiota.

Porém, aqui existe uma sequência bastante controversa. E, não se trata da famosa cena da orgia entre os que fazem parte do grupo, mas a participação verídica de pessoas com reais deficiências mentais interpretando elas mesmas. O problema é que essa sequência é carregada de tensão. Para os outros atores em cena, que sabem se tratar de uma ficção, tudo bem, porém, os outros, até por suas limitações, sentiram-se assustados. Isso, percebemos claramente.




Nesse caso, cabe questionar: foi ético da parte de Von Trier fazer isso? De forma direta: era algo que poderia ter sido evitado! No entanto, no afã de dar mais veracidade à sua obra e de gerar aquela polêmica que sempre rende visibilidade, o diretor decidiu manter a famigerada sequência. E, é algo que, com certeza, tirou pontos do filme, e esvaziou uma mensagem que, a bem da verdade, foi bem conduzida durante quase toda a projeção.

"Os Idiotas" até passa um interessante retrato das falsas convenções sociais, numa analogia onde há sempre o questionamento de quem é o verdadeiro idiota. No entanto, Von Trier, querendo passar mais do que devia, escolheu algumas exposições erradas. Poderia ter sido, em muitos momentos, lúdico ou sutil, que o filme ganharia mais força. Mas, preferiu chocar, deixando a reflexão mesmo a cargo do espectador.

Em suma, o que temos aqui é uma ousada produção acadêmica, e só. Com "Dançando no Escuro" e, principalmente, "Dogville", o diretor se sairia bem melhor.


NOTA: 6,5/10.

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