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DICA DE FILME

"DIÁRIOS DE MOTOCICLETA" (2004)




Desde a década de 60 que os roadie movies geram fascínio entre os cinéfilos. Após o clássico de Dennis Hooper, "Easy Rider - Sem Destino", muitos outros filmes abordaram a temática de uma viagem sem rumo, em busca de novas descobertas. "Diários de Motocicleta" vai por esse paradigma, e as descobertas que os protagonistas fazem nem sempre são prazerosas. Além disso, num determinado momentos, eles fixam passagem, passando boa parte da projeção apenas absorvendo o que viram até então.

Um desses aventureiros é ninguém menos que o Che Guevara. O filme é baseado livremente em relatos seus e de seu companheiro de viagem, Alberto Granado. Juntos, eles decidiram percorrer toda a extensão da América Latina no início dos anos 50, com o intuito de conhecer melhor a região e seus povos. De início, os percalços encontrados são naturais nesse tipo de empreitada: desavenças com moradores locais, dificuldade para conseguir alimento e abrigo e até mesmo a moto em que andavam quebra definitivamente após alguns meses.




No entanto, paralelo a tudo isso, outros acontecimentos vão mudando gradativamente a visão de mundo dos dois, principalmente do jovem Che, que se vê indignado com todas as injustiças que encontra pelo caminho. Índios expulsos de suas terras, camponeses perseguidos acusados de comunismo e exploração de trabalho em minas são algumas das duras realidades que forçarão o Che à reflexão.




É aí que o roteiro comete um pequeno pecado: endeusar, mesmo que timidamente, a figura dele. Na produção, vemos a formação daquele que se tornaria o mais famoso guerrilheiro do século 20. Estamos falando, portanto, de uma das personalidades mais controversas da nossa história recente, e, por isso, fica a dúvida se o que o Che viu nesse percurso foi realmente decisivo para sua mudança de postura, ou se ocorreram mais situações que o levaram ao ponto mais famoso de sua biografia, quando se envolveu na Revolução Cubana.

Porém, de uma forma geral, a produção é ótima como cinema. Sua narrativa mescla bem humor e drama, e o diretor Walter Salles, como sempre, oferece um trabalho bastante seguro. As atuações também são outro destaque, em especial, as de Gael Garcia Bernal e Rodrigo de le Serna, como a dupla principal da estória. Some-se a isso as belíssimas locações por onde eles passam, como, por exemplo, Machu Picchu, no Peru.




"Diários de Motocicleta" é, de fato, muito competente, e consegue produzir aquela sensação de revolta que provavelmente Che um dia sentiu ante tantas injustiças. Essas, inclusive, que ainda hoje estão a olhos visto, sem que, para isso, precisemos de uma viagem para descobrí-las.


NOTA: 8,5/10.

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