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DICA DE FILME

"O SUBSTITUTO - INDIFERENÇA" (2011)
Direção: Tony Kaye.


"E, nunca me senti tão profundo, e, ao mesmo tempo, tão alheio de mim e tão presente no mundo."
(Albert Camus)

Sentir o peso do mundo nos ombros faz parte da vida de Henry Barthes. Não é algo intencional, é bom frisar. Trata-se de uma condição que ele adquiriu desde criança, quando teve que passar por tragédias pessoais, como o suicídio da mãe. Henry existe enquanto se preocupa com quem está ao seu redor; pode ser tanto uma aluna com problemas de auto-estima ou uma prostituta de rua que não tem para onde ir.

Atualmente, Henry cuida de seu avô, que está bastante doente. Este, e tantos outros agravantes, fazem com que ele passe para o lado pessoal e profissional tudo o que sofreu. Por enxergar as coisas um pouco mais além, tenta fazer a diferença para aqueles que precisam de algum tipo de ajuda.



Além disso, ele chega como professor substituto em uma escola problemática, que, um dia, já foi modelo de educação na cidade. Hoje, porém, não faltam nas salas de aula violência e desrespeito aos professores (muitos destes, à beira de um colapso). E, é nesse ambiente que Henry se encontra agora. Gradativa e naturalmente, vai ganhando a confiança dos seus alunos. Mesmo sendo uma pessoa com uma visão pessimista da vida, ele os estimula a pensarem fora do senso comum.

Em linhas gerais, esta é a espinha dorsal que move a narrativa de "O Substituto - Indiferença".

Este filme tem um tom quase documental. As cenas parecem que estão sendo gravadas com câmera simples, e ela se movimenta o tempo todo. Há momentos em que ela dá um close bem perto dos personagens (como se fosse para sentirmos mais as suas angústias), e em outros, ela se distancia, como se pedisse para analisarmos o geral, o contexto, o todo.


O começo de dele reforça esse tom, pois apresenta o que seriam depoimentos reais de professores falando sobre seus anseios, aspirações e problemas. A produção intercala o tempo todo falas soltas do próprio Henry, e sua visão particular de mundo. Os comentários do protagonista são ácidos, pessimistas e desesperançados, mas, sem ironia. É apenas o seu estado como pessoa, a sua condição humana, aprendida desde muito cedo.

Interessante notar que o filme tenta superar os velhos clichês de produções do gênero, onde o mote era um professor que chegava para colocar ordem numa escola. Aqui, não temos o "mestre heroico" que vai mudar radicalmente a cabeça e o comportamento dos seus alunos, mesmo ele fazendo alguma diferença por onde passa. E, essa diferença se dá através de ações simples, como dar atenção e quem se sente "invisível".


"O Substituto" ainda possui algumas referências (principalmente, literárias) muito boas. Numa cena, por exemplo, Henry discute com seus alunos a respeito do livro "1984". Mais precisamente, sobre a expressão "duplipensar", que nada mais é do que acreditar em duas ideias contraditórias, e você saber, de antemão, que uma é falsa.

"Quantas vezes acreditamos em coisas que sabemos que não mentiras, mas, por conveniência ou medo, tomamos por verdade?"

Agora, a ressalva: a produção tem por foco somente o olhar de Henry. Portanto, o filme não é, necessariamente, uma visão universalista da realidade, e nem se propõe a ser. A maioria que o assistir, achará que se trata de um longa triste e depressivo. Só! Alguns tantos ainda entenderão as motivações do protagonista, mas sem se envolverem. E, apenas uns pouquíssimos se identificarão com ele, traçando alguma espécie de paralelo.


Estamos diante, pois, de um filme difícil, que não se incomoda em não gerar identificação imediata. Pode até ser uma experiência desagradável, a depender do estado de espírito de quem for vê-lo. Como cinema, ele é ótimo, com atuações bem espontâneas e direção competente e nada óbvia. Mas, como reflexão, ele incomoda bastante, e talvez nem todos consigam aguentar sua aura angustiante até o final.

E, pra quê um filme assim? Não estaríamos precisando de produções que enaltecessem a esperança e a fé, ao invés da tristeza e do pessimismo? Bem, sim e não! Mesmo sendo muito ceticista, ele mostra ações concretas; e ações boas, que dão resultado, apesar de não serem reconhecidas pelo próprio protagonista. Quanto ao otimismo, não raro, seu exagero transformasse em frustração.


Para entender melhor "O Substituto" basta fazer como Henry Barthes e enxergar mais do que é simplesmente mostrado, e não ficar, claro, indiferente a isso.

"É muito fácil 'não ligar'. O difícil é ter a firmeza de caráter suficiente para se importar!"


NOTA: 10/10.

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