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DICA DE FILME

"PARIS, TEXAS" (1984)


Todos nós buscamos por algo, mesmo que não saibamos exatamente o quê. Quando vemos Travis caminhando a esmo no meio do deserto, logo no início de "Paris, Texas", pensamos: "O que ele procura? Por que caminha, aparentemente, sem destino?"

As respostas, ao longo das duas horas e meia do filme não serão nada fáceis. Mas, emocionarão. O irmão de Travis procura por ele há 4 anos, desde o seu desaparecimento. Quando finalmente o encontra, ele está maltrapilho, transtornado, com um olhar triste e perdido.



A partir daí, vemos as tentativas dele em se readaptar no convívio social. Dois detalhes importantes: ele tem um filho, Hunter, que irá tentar reconquistar, e além disso ele se recusa a dizer a qualquer um os motivos do seu desaparecimento.

É como se Travis fosse uma outra pessoa antes de sumir, e, por causa de algum trauma, tenha se sentido tão vazio que passou a vagar sem destino.

O diretor Wim Wenders impõe um ritmo bem lento à narrativa. Mesmo assim, as cenas se encaixam tão bem que você não sente o tempo passar... até chegar numa sequência já próxima do final. É quando Travis encontra alguém muito importante em sua vida. Ele lhe faz certas confissões, admitindo, dolorosamente, sua culpa por vários acontecimentos no passado.


O problema dessas cenas é justamente a falta do que tivemos de sobra na produção até então: ritmo. A exposição das dores, das mágoas, enfim, de toda uma história dos personagens é detalhista em demasia, e pode se tornar pedante para alguns que venham a assistir o filme.

Wenders teria se saído melhor se tivesse optado por algo mais enxuto e direto. Não chega a estragar "Paris, Texas", longe disso, mas que faz ele perder alguns pontos, isso faz.

Porém, tirando isso, o filme, como um todo é ótimo. A relação entre Travis e o filho que acabou de reencontrar é muito bonita. Desde o primeiro instante, torcemos para que tudo dê certo entre eles. O carisma dos personagens unido ao talento dos atores é a força motriz desse resultado.


As próprias questões humanas, levantadas com frequência na obra de Wenders, são bem exploradas. A busca por algo que nos complete, as difíceis decisões entre o certo e o errado, os arrependimentos, as mudanças de postura diante da vida... Tudo canalizado pelas figuras singulares de Travis e seu filho.

Bom destacar que a parte técnica da produção é primorosa. As tomadas aéreas, por exemplo, são deslumbrantes. No entanto, antes de serem meros recursos estéticos, refletem, e muito, a solidão do protagonista. São sequências que expressam sentidos interiores, estados de espírito.

A trilha sonora, a cargo do guitarrista norte-americano Ry Cooder, que voltaria a trabalhar com Wenders em "Buena Vista Social Club", é igualmente excelente. Minimalista, ela pontua as emoções dos personagens de maneira bastante eficiente e certeira.


O filme termina com Travis completando o ciclo que ele mesmo quebrou, há 4 anos. Pode ser uma forma de redenção, mas dá a entender também que a busca dele vai continuar. A dor, aparentemente, transforma-se em alívio, e ele segue; apenas segue.

É certo que "Paris, Texas" se alonga além do que deveria. Um erro, sim, mas dada a intenção de seu realizador, e as várias passagens fascinantes, é algo que pode ser levado em consideração.

Não se equipara, porém, aos maravilhosos "Asas do Desejo" e "Buena Vista Social Club". No entanto, ainda mostra um cineasta acima da média, com a sua notável preocupação pelo ser humano e suas disparidades.


E, se fosse só por isso, já seria válido assisti-lo.


NOTA: 8,5/10.

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