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FILME NÃO RECOMENDADO

"DEUS NÃO ESTÁ MORTO" (2014)
Direção: Harold Cronk.


Diz o ditado que, de boas intenções, o Inferno está cheio. Se essa máxima é verdadeira, não sei. Mas, é fato que muitas coisas aparentemente inocentes, ou que poderiam render boas discussões, acabam apelando para manipulações desnecessárias e mal-intencionadas.

Com o filme "Deus Não Está Morto", acontece exatamente isso. Seus primeiros 10 minutos já são suficientes para percebermos do que se trata: doutrinação em forma de cinema. Nada é colocado de forma espontânea; tudo é milimetricamente calculado para passar uma "mensagem".

O problema não é o fato de ser uma produção religiosa, nem de querer propagar uma crença. A grande questão que faz dele um filme ruim é COMO ele passa essa crença. E, o jeito encontrado pelos roteiristas foi o de forçar a barra em situações bastante inverossímeis, artificias.



A manipulação já começa com os próprios personagens, onde o professor de filosofia é retratado, logo de cara, como um vilão por ser ateu, e o jovem estudante cristão é colocado como um mártir, um herói da fé, que irá, inevitavelmente, converter o incauto e pecador professor.

O maniqueísmo reina absoluto. Quando se apresenta pela primeira vez à nova turma, esse professor fala algumas frases de efeito, e dois alunos já saem da sala. Logo após, ele mostra um quadro com vários autores, onde a única relação entre eles é o fato de terem sido todos ateus. A partir daqui, são insultos e mais insultos contra quem acredita num Deus.

Percebam o jogo: esse professor ensina INTRODUÇÃO à filosofia, e já começa a primeira aula com um assunto complexo como a existência ou não de um Deus, e ainda cita diversos filósofos só para ter a desculpa de dizer que eram ateus. Além disso, é bom salientar, que nenhum dos alunos reclamou dessa postura agressiva na coordenação da universidade (o que seria justo).


Aliás, essa sequência inicial é de muita má-fé. Dá a entender, claramente, que caso você seja religioso não poderá ler (muito menos, apreciar) autores como Foucault, Dawkins, Chomsky ou Camus. É um total estímulo à falta de conhecimento, onde estudar coisas diferentes de sua zona de conforto é errado; devemos conhecer apenas o que nos agrada, portanto.

E, essa doutrinação nem um pouco sutil segue caminho nas quase duas horas do filme. E, isso significa, em linhas gerais, desrespeito à outras crenças. Por exemplo: uma jovem muçulmana resolve se converter ao Cristianismo, e é expulsa pelo pai de casa. Já, um rapaz, vindo de uma China comunista, cujos pais são ateus, também resolve se converter! Fica parecendo que somente o Cristianismo é o caminho válido, do bem, e que os cristãos são o povo mais perseguido e oprimido do mundo.

Em outra cena pra lá de tendenciosa, um casal é interpelado por uma repórter, que lhes pergunta porque eles matam animais silvestres por diversão, e mesmo assim, frequentam a Igreja. "Não seria isso hipocrisia?", pergunta a repórter. Até pensamos que se trata de uma crítica da parte do roteiro a essa "categoria" de religioso.


Só que, no final do filme, esse mesmo homem que caça por entretenimento aparece no telão de um show gospel dizendo que Deus não está morto, e que quem estiver com um celular, que mande essa mensagem pra todos que conhecer. Detalhe: a repórter que fez aquela indagação ao casal descobriu que tinha câncer! Moral da história: nunca questione um cristão, pois Deus pode castigá-lo!!

Durante as palestras do estudante nas aulas de filosofia, até que o filme tenta mostrar alguns argumentos válidos. Tenta; mas não consegue. Em determinado momento, ele cita uma fala do cientista Stephen Hawking, que diz:

"Como existe a lei da gravidade, o universo pode e vai criar a si mesmo do nada."

Para depois, refutar isso com uma fala do matemático John Lennox:

"Uma  besteira permanece uma besteira mesmo quando é falada por cientistas mundialmente famosos."

Ou seja, não argumentou nada, não explicou coisa nenhuma. Apenas disse que Hawking podia ter dito uma besteira.


Mas, o pior foi reservado para a terceira e última palestra dele. No final, mostrando-se tão intolerante e arrogante quanto o seu professor, ele afirma, categoricamente, que os ateus não possuem valores morais, e que estes só podem ser adquiridos e ensinados sob a presença de um Deus.

Fechando com chave de ouro, ele sentencia:

"Estou dando aos meus colegas a liberdade de crer ou não, pois é assim que Deus quer".

Em suma: os obriga, veladamente, a crerem no que ele acredita. Isso está longe de ser livre arbítrio. Daí, todos os estudantes se levantam e gritam, em uníssono:

"Deus não está morto!"

Aleluia, não?


Como cinema, "Deus Não Está Morto" possui algumas (poucas) qualidades, como uma boa produção técnica (principalmente, na cena do atropelamento), e uma atuação competente de Kevin Sorbo, deixando para trás, definitivamente, seus dias da série televisiva "Hércules".

Mas, é só.


No mais, trata-se de um filme que serve para uma doutrinação fácil e rasteira a ser usada por líderes religiosos com preguiça de gastarem saliva em seus cultos.

Preconceituoso, arrogante e muito mal-intencionado, é o tipo de produção não recomendada para aqueles que buscam ver a questão religiosa tratada de maneira honesta, sem maniqueísmos.


Caso Deus exista (e não esteja morto), Ele, com certeza, sentiu vergonha desse filme.


NOTA: 2/10.

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